26 Nov 2020
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Uma História de Shadow of Mordor: O Coleccionador de Crânios

Foi lançado a semana passada o Middle-Earth: Shadow of Mordor, que é basicamente uma mistura de Batman e Assassin’s Creed passado na Terra Média.

O grande Ricardo Passos está neste momento a trabalhar de forma incansável na vossa análise, mas eu, depois de ontem jogar 8 horas seguidas, quero deixar aqui uma história acerca do Nemesis System.

Este sistema é o sistema do jogo através do qual alguns inimigos – os chefes – desenvolvem relações e personalidades consoante o que fazemos no jogo.

Eu não estava à espera de grande coisa. Normalmente, quando encontro um “boss” num jogo, mato-o. Não há grande espaço para manobra. Não imaginei grandes coisas que pudessem acontecer.

Estava muito enganado. Por bem preparado que o jogador esteja, matar um boss não é uma certeza em SoM. Não é porque há muitos imprevistos que podem acontecer, mas o mais habitual é mesmo um outro boss vir em seu socorro. Mesmo que se mate um, é bem provável que o jogador tenha que fugir / deixar escapar o outro.

Aconteceu-me algo parecido. No meu caso, o meu alvo era um orc de nome impronunciável  mas conhecido como “O Colecionador de Crânios“. Tinhamo-nos encontrado uma vez. A intervenção dele tinha-me feito bater em retirada durante uma tentativa de assassinar um dos seus colegas, mas não antes de rebentar uma fogueira para os atrapalhar.

Numa outra ocasião, eu estava nos meus assuntos e ele mesmo me emboscou perto de uma fortaleza orc. Estava com a cara queimada e ligada – e eu matei-o. E fui à minha vida, contente de me ter vingado.

Qual não é a minha supresa quando, durante um combate com um dos chefes dos orcs, me aparece novamente o Colecionador. Tomei-o por morto, mas tinha-me enganado. Aqui estava ele, com  a queimadura anterior e cicatrizes do combate de espada que, pensava eu, o tinha eliminado de vez.

Matei o meu alvo, mas o Colecionador, tive que o deixar para outra altura.

Surgiu uma oportunidade – descobri que o Colecionador estava a planear executar um dos seus rivais. Desta vez, ia ser eu a apanhá-lo de surpresa! Fui para o local da execução, e empoleirei-me no topo de uma muralha, sobre os orcs. Saltei para a matança, de adaga na mão – mas no ultimo momento, o Colecionador deu um passo para trás e o meu ataque atingiu o seu rival.

Fiquei então face-a-face com o meu Nemesis, e mais de 20 orcs do seu exército. Mas estava decidido a terminar isto hoje! Fugi, atraindo-os para umas ruínas, onde me escondi. Quando o Colecionador passou pelo meu esconderijo, saltei em cima dele e cravei-lhe a adaga na cabeça. Os seus capangas fugiram a sete pés. Finalmente, vitória.

Aqui é preciso fazer notar que isto não era uma ocorrência normal. Alguns orcs tinham fugido, mas este tinha sido o único que tinha sobrevivido a um ataque supostamente fatal.

E assim o foi mais uma vez – depois de umas horas a vaguear por Mordor a assassinar capitães, eis que retorna o Colecionador de Crânios: queimado, cheio de cicatrizes, com uma placa metálica a cobrir a metade da cabeça que eu tinha trespassado com a adaga. Não tinha sido à segunda que o tinha mandado para o céu dos orcs.

Estava em desvantagem e morri, cercado por orcs. Quando regressei à vida, decidi que ia acabar a minha missão actual, e depois ia caçá-lo. Á terceira ia ser de vez.

Mas durante a minha missão, enquanto me esgueirava por uma fortaleza orc, vi-o, por pura coincidência. O Colecionador, sem nenhum motivo especial, sozinho num beco, a fazer caretas a uma besta enjaulada.

Agora ia acabar tudo. Não havia margem para erro. Caminhei pelos telhados e saltei-lhe em cima. Ele nem me viu, nem teve tempo de fazer os comentários habituais acerca do nosso ultimo encontro. Estava vivo, e depois estava morto.

Este gajo, que me andava a antagonizar, a emboscar e atrapalhar os planos, que carregava as cicatrizes de vários combates entre nós, tinha acabado de morrer, sozinho num beco, sem sequer me ver.

Ele tinha sido o melhor dos inimigos, e agora eu sentia-me mal. Tinha sido anti-climático. Devia ter sido uma luta épica, ele devia ter visto que tinha sido EU. Mas não, matei-o à traição, sozinho num beco.

Durante o resto do dia, fiquei à espera que ele voltasse. Volta e meia tive esperanças. Mas parece que nenhum orc, por duro que seja, consegue iludir a morte três vezes. À terceira, como se costuma dizer, foi de vez.

Há outras coisas que Shadow of Mordor faz. Umas faz bem, outras não faz tão bem. Mas este sistema é especial. É especial porque nos leva a criar uma relação, por ténue que seja, com os inimigos que em qualquer outro jogo são só números.

A morte do Colecionador de Crânios foi como a morte de um dos Colossos em Shadow ot the Colossus, foi um evento melancólico, agridoce. Ele era, realmente, o MEU inimigo, não simplesmente um inimigo.

Tendo em conta os ciclos de desenvolvimento do actual video jogo, vai demorar mais ou menos uns três anos até os jogos novos começarem a copiar o Sistema Nemesis.

Vai ser uma espera longa.

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