26 Nov 2020
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Sobre Críticas e Análises

“Depois deste tempo, não estou interessado nos jogos novos a sair, é o melhor 6/10 que continuo a jogar.” Foi o que me disseram ontem, acerca de Destiny, o inegável novo sucesso da Bungie no mercado dos video jogos.

É problema do “jornalismo” de videojogos a decisão imediata, a falta de tempo, a pressa nas coisas. É preciso deixar o vinho respirar, afinal de contas. O mesmo se pode dizer em relação aos jogos.

Uma prova de vinhos é uma maneira de avaliar vinhos. Da para sentir o corpo do vinho, o cheiro, ver a lágrima que deixa no copo. A experiência pode ter até o cunho do local: uma adega de madeira envelhecida, ladeada por barris anciões, é certamente um ambiente mais propicio a saborear bons vinhos do que um estéril restaurante.

Todo o ser humano é um pouco sinestético. As coisas não nos valem apenas pelo seus atributos físicos, mas também pelo modo como são encaradas, pelas perspetivas que trazemos, pelo ambiente e tempo que temos para as apreciar. Há vinhos que são imediatamente agradáveis. Há vinhos que exigem alguma cultura para apreciar. Um vinho pode ser fraco numa prova, e depois excelente numa conversa com amigos, em frente a uma lareira acesa e com fatias de queijo curado a acompanhar.

Tudo isto para dizer: as coisas não podem ser avaliadas num vácuo. A experiência do analista de video jogos que analisa um jogo para o dia, para a semana em que sai – até para o mês em que saí – está a fazê-lo artificialmente. O próprio acto de fazer por obrigação – por agradável que seja – algo que outros fazem por prazer, leva a uma distorção dos valores. Cada pessoa tem um ritmo de jogar, um ritmo de apreciar as coisas. Os vinhos, os jogos – os objectos de arte! – são feitos para ser apreciados, saboreados, não para ser analisados e rotulados.

Destiny nunca poderia ter sido avaliado numa semana, num mês. Eu tinha a sorte de ter anos de experiência em MMOs, e, como o apreciador experiente de vinhos consegue numa prova imaginar o que será beber o vinho no conforto do lar, como calma e acompanhado pela família, também em consegui imaginar para além da base que via e imaginar o valor que o jogo teria não no momento, mas à medida que tanto ele como a experiência dos jogadores amadurecia. Respirava.

Outros não terão tido tanta sorte, e deram as suas notas medianas a um jogo que hoje é jogado e apreciado em muito maior escala do que jogos recentes com muito melhores notas. Mas não os condeno. Estes escritores fizeram o melhor que puderam com o tempo e conhecimento que tinham.

O problema é cultural, e envolve-nos a todos. Envolve os escritores que estão formatados para este estilo de cobertura, e envolve os leitores, que por muito reclamem de notas boas e notas más, acabam por validar estes artigos, tornando-os nos mais visitados e discutidos.

E acaba por ser um tipo de escrita pouco útil, ou aparentemente pouco útil, pois os que mais lêem estes artigos e os comentam, são pessoas que ou já compraram o jogo em questão, ou já decidiram que não vão comprar, ou já decidiram que o vão comprar. O propósito original da análise – o de ser um guia para o consumidor – passa para segundo plano face ao seu propósito actual: o de ser uma peça de discussão entre leitores que vêem validada ou invalidada a sua própria opinião.

Mas vamos assumir que este é um dragão impossível de matar. Vamos assumir que a industria da escrita dos video jogos não sobrevive sem análises e sem as pontuações que lhes são inerentes, e não sobrevive sem ser debaixo do jugo do gigante que é o Metacritic.

Assumindo isto, como podemos nós, a imprensa entusiasta, melhor servir o leitor com as nossas análises?

Eu vejo duas opções.

A mais pratica: demorar mais para analisar os jogos. Jogar os jogos como os jogadores os jogam. Dar o tempo necessário para um jogo com Destiny mostrar o seu verdadeiro valor, ou para um jogo como Assassin’s Creed Unity revelar os seus problemas e bugs.

Parece-me a forma mais natural e mais aberta de analisar o jogo. Sim, é um atraso em relação aos outros sites. Mais e depois? Mais uma vez: a maioria dos jogadores entusiastas já decidiu se compra ou não o jogo, não espera por análises. Só querem ler uma análise para comparar a opinião do autor com a sua. Isto faz-se muito melhor se o autor tiver tido tempo para deixar o jogo amadurecer, e simultâneamente tiver dado aos seus leitores oportunidade de o experimentar. Os jogadores que decidiram esperar para ler mais sobre o jogo? Esses já decidiram esperar, podem esperar mais uns dias.

O único problema que vejo nesta alternativa é que algumas companhias exigem aos escritores metas para a entrega das análises. Acabam por ser elas as piores inimigas dos seus jogos, pois obrigam os escritores a jogá-los de uma forma pouco natural. E ainda são algumas que nos exigem isto.

A segunda opção, então, é rever as análises ao longo do tempo. Alguns sites já fizeram isto, e até actualizaram notas. A vantagem deste método é que não chateia as distribuidoras. A desvantagem é que, na minha óptica, é uma forma confusa, e não alcança os leitores tanto quanto a anterior, pois habitualmente um leitor lê uma análise assim que está escrita, e depois perde o interessem em voltar para ler a actualização. Para além disso, o todo-poderoso Metacritic só aceita a primeira nota de cada análise.

Pessoalmente, prefiro optar pela primeira. Acredito que os leitores que seguem o meu trabalho não se importam de esperar. Se uma companhia me exige a entrega num tempo que julgo não ser suficiente para apreciar o jogo, prefiro recusar (nem todos se podem dar a este luxo, bem sei).

E vós, leitores? O que acham?

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