21 Out 2020
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Quintino Aires vs Videojogos: A saga continua

QuintinoOntem o programa Você na TV contou novamente com a presença de Quintino Aires e mais uma vez se instalou a polémica.

 O membro da equipa ene3, Ricardo Passos, foi convidado a estar presente no programa do Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira, e por motivos de trabalho, foi recomendado o Ivan Barroso, conhecido como historiador de videojogos, escritor de crónicas para o Jornal Público e para a Pushstart, Diretor do curso de videojogos da ETIC, e a partir de hoje, o homem mais paciente em Portugal. Quem não tiver paciência para ler o texto todo, poderá contar com um resumo/conclusão no fim do artigo, juntamente com o vídeo do programa.

O título do programa é “Os Jovens e os Videojogos”, mas inicialmente o convite foi feito para se falar sobre videojogos em geral, discutindo os prós e contras dos mesmos. Posteriormente foi alterado para “Os videojogos retiram o poder de argumentação“, mas ao que parece durante o programa o tema mudou para “A psicologia e os videojogos”, graças ao Dr. Quintino Aires. Pondo as confusões à parte, o programa começa com Quintino Aires a fazer entrevista a uns gamers que estavam presentes na 1UP Gaming Lounge, e estando lá presente, posso dizer que o que foi mostrado foi deveras manipulado. Para começar são apresentadas quatro entrevistas, das oito entrevistas efectuadas. Foram utilizadas a de dois rapazes para criar a sua teoria, e depois a do próprio Ricardo Passos para mais à frente no programa fazer um argumento descontextualizado, o qual irei refutar mais abaixo. Gostava de saber onde está a entrevista ao Rodrigo Gama e à Rita Ferreira, ou se simplesmente se não tinham “material” que o Doutor pudesse usar.

Explicando agora o porquê da palavra “usar”, depois de Quintino Aires fazer as entrevistas na 1UP Gaming Lounge, os nossos colegas da Kirane Project fizeram umas pós entrevistas às mesmas pessoas entrevistadas pelo psicólogo, onde cada um expressou o que sentiu enquanto entrevistado. A reação da maioria foi quase unânime quando disseram que Quintino Aires formulava as perguntas de forma manipulativa, querendo induzir as pessoas em erro. No meu caso, eu falei na diferença entre jogar online com um amigo, ou jogar lado a lado, dizendo que a única diferença que sinto é não conseguir ver a expressão facial do meu colega quando estamos a jogar online. Contudo, salientei que temos tecnologia suficiente para se poder estar a jogar online com um headset, a conversar com o tal amigo e que isso mesmo dá para sentir as suas emoções, pois temos a possibilidade de ouvir um suspiro, uma palavra motivadora, um grito, seja o que for (parte cortada à minha entrevista). Vejam aqui os vídeos com as reações às entrevistas feitas por Quintino Aires:

 

Dada a introdução ao programa, a Cristina pergunta ao Dr. o “Porquê, não aos videojogos”, ao qual Quintino dá a resposta que já tinha expressado posteriormente, dizendo que hoje em dia as crianças, os adolescentes e até os jovem adultos têm problemas em comunicar e interagem pouco com humanos devido aos videojogos. Diz também que o grande desafio que a psicologia tem tido nos últimos anos tem sido tratar jovens que têm tido problemas sociais e de interação humana e que a conclusão a que têm chegado é culpa dos videojogos. Gostava de ver este estudo… O Doutor diz que quando estes jovens chegam a adultos têm dificuldade em comunicar com os colegas de trabalho, com as parceiras amorosas no sentido em que não conseguem argumentar, não conseguem ler os sinais dos outros, sendo a expressão facial (gostou do meu termo?) um ponto essencial para tal. Em resumo o Dr. Quintino Aires defende que uma pessoa que joga videojogos tem problemas sociais e de argumentação o que o faz com que a pessoa esteja menos preparada para encarar a vida e para se realizar como pessoa. Ora bem, já que o Dr. diz que lê tudo o que falam dele, passo a apresentar um pouco da minha vida “anti-social”: Tenho 24 anos, tenho uma licenciatura em Design, seguida de um Mestrado em Design e Cultura Visual, trabalho como Formador Profissional há um ano desde que acabei a faculdade, tenho um namoro sólido de quase 5 anos, 3 melhores amigos, um pai e uma mãe orgulhosos, e sim, sou um gamer. Não possuo vícios, não fumo, não bebo para além daquilo que pode ser considerado normal e só o faço mesmo ocasionalmente e não consumo drogas.  Se isto para o senhor é uma pessoa mal encaminhada na vida, acho que a sociedade mundial tem uma visão contrária à sua, e escusa de argumentar que são “casos específicos”, porque hoje o senhor provou muito bem que não acredita nisso.

Novamente o Dr. puxa o assunto das drogas, dizendo que nos dias de hoje, a ciência fez coisas tão boas como os medicamentos, e coisas tão más como as drogas, afirmando depois que as drogas inicialmente eram usadas como medicamentos. Percebendo o caminho que o próprio estava a tomar, a Cristina pergunta se os videojogos não podem ser usados de forma regular, ao qual o Dr. explica que hoje em dia em baptizados, em festas e outros eventos, os miúdos estão todos agarrados a um jogo e que se não estiverem, tiram o jogo aos pais. Seguidamente o Goucha pergunta se um videojogo pode destruir a vida de uma pessoa como uma droga (pressupomos a cocaína ou heroína, sendo as que o psicólogo mais gosta de mencionar). Aparentemente sim, com a justificação de um videojogo ser algo saboroso e ter que enfrentar um amigo na vida social é tão difícil, que a resposta natural, é refugiar-se nos videojogos. Com este argumento se eu fosse uma bússola, não saberia em que sentido ir perante este argumento. Uma pessoa que se drogue terá as suas razões, às quais eu só posso assumir as suas razões, mas uma coisa posso dizer e afirmar pela comunidade gamer, pois a razão pela qual todos “nós” jogamos videojogos é para nos divertirmos. A indústria dos videojogos foi feita como uma indústria de entretenimento, mantendo-se sempre com esse objetivo nos vários géneros que existe, ao invés das drogas e a qual o próprio Quintino afirma, é um uso inapropriado de medicamentos. O uso excessivo de videojogos pelas crianças resume-se à falta de atenção dos pais perante os seus, e citando o Dr. “usam as consolas como babysitter”, sendo este o único termo em que consigo concordar com ele no seu parco glossário.

Seguidamente o nosso colega Ivan teve a breve oportunidade de falar sobre se mantinha a opinião de uma frase que eu escrevi, sendo isto um erro dos editores (acontece!). O Goucha pergunta então se o Ivan acha se Quintino é apto para falar de videojogos, ao que este responde que ainda não tinha falado com o Dr. para saber se este alguma vez pegou num videojogo, reforçando a ideia de que se uma pessoa critica uma expressão artística, é porque tem algum contato com a mesma (dando o exemplo de que pode fazer uma crítica à mensagem de Fernando Pessoa, porque leu o livro). A resposta de Quintino a este argumento é que foi convidado a dar uma palestra sobre a psicologia de Fernando Pessoa, onde ele admite não ser especialista na matéria, mas mesmo assim deu uma palestra onde pelos vistos foi altamente elogiado. Portanto ao que parece o Dr. afirma que pode comentar qualquer ponto psicológico de uma matéria, mesmo não tendo conhecimentos sobre a mesma. Acrescenta também que quando se encontra no programa faz uma avaliação psicológica do uso do videojogo e que não pode falar da morfina por não ser bioquímico, mas pode falar dos efeitos psicológicos da morfina pois isso já é a sua especialidade. Ou seja, um bioquímico só pode falar da morfina, mas não dos seus efeitos psicológicos? Não será que é esse mesmo bioquímico que lhe dá a informação de quais são as substâncias que a morfina contém que podem vir a causar efeitos psicológicos nas pessoas, como o vício à substância? Ou será que descarta a opinião do homem que trabalha na base diária com o produto, porque o senhor é que é psicólogo, sendo que essa categoria lhe dá a sabedoria em todas as matérias?

A Cristina, de seguida, pergunta o que é um bom uso de um videojogo. O Dr. não responde diretamente à pergunta, mas fala do exemplo de um homem que lhe enviou um e-mail a dizer que quando chega do trabalho fica uns 30 minutos a jogar, falando depois dos jogos no seu tempo que tinham um formato diferente e que hoje se aproveita o avanço da tecnologia. Mas a sua resposta acaba por aqui, e não temos uma conclusão à pergunta da Cristina. Apenas temos um exemplo que facilmente se arranjam milhares de gamers semelhantes. E um exemplo sem nexo. Pode-se dizer que foi “palha”, pois o que realmente quis argumentar foi das falhas ou dramas como lhe chamou, que como os videojogos são “bons”, tal como a droga e numa determinada faixa etária não há capacidade de resistir, prejudicando uma série de áreas do desenvolvimento humano. Portanto as drogas são boas Sr. Dr. Quintino Aires? E que determinada faixa etária é essa, que é tão facilmente comparada a drogados?

O Ivan questiona o Dr. sobre os seus argumentos em relação às drogas como a cocaína e heroína, onde o mesmo diz que a ciência fez algo de tão bom para ajudar uma pessoa em dores, mas que o uso excessivo levará à destruição da pessoa, sendo isto a definição de uma droga. Segue-se uma breve troca de elementos entre os quatro presentes sobre os miúdos que estão um dia inteiro a jogar por não estarem a ser controlados. O Ivan diz que defende que os videojogos têm de ser controlados, por serem uma atividade como outra qualquer. O Goucha até levanta um ponto interessante dizendo que há uns anos diziam que esta “droga” era a televisão, tendo o Quintino Aires reforçado a ideia que, tal como há muitas crianças agarradas a um videojogo, também há imensas crianças agarradas à televisão. Então e a televisão agora não é droga porquê? Porque é o único meio de promover a sua imagem? Como o Ivan diz, e com razão, já acusaram a literatura, a banda desenhada e o cinema de serem elementos que desvirtuam as nossas crianças. Acrescenta também que um pai deve ser responsável por delinear o tempo que o seu filho está no videojogo, e antes que pudesse terminar o raciocínio, foi novamente interrompido pelo Dr. que diz que o Você na TV é um programa dirigido a pais, avós e tios para saberem como lidar com os seus filhos, e como tal, que se deve alertar sobre o grave problema da sociedade de hoje em dia que é o tempo excessivo que as crianças passam agarrados aos videojogos. Ora se o programa é dirigido a pais, avós e tios como é que acha que isto chegou aos ouvidos da comunidade gamer? Posso até elucidá-lo um pouco sobre isto: o senhor está na TVI, num programa da mesma, que é um dos 4 canais nacionais, disponível em todas as televisões do país, e o senhor vai dizer que quando você aparece na televisão todos os que não sejam pais, tios ou avós deviam mudar de canal? Eu não pertenço a nenhum desses elementos, logo pela sua lógica, esse programa não tem nada para mim. Não será um bocado mau afastar espectadores do próprio canal com o qual você colabora? O que vocês falam pode não ser para miúdos, jovens adultos, seja o que for, mas isso é razão para você dizer que o programa em que participa, que não tem conteúdo que lhes interesse?

Mais à frente, depois de uma história bonita que  Quintino contou para queimar tempo, o Goucha começa a ler comentários de pessoas que estavam a participar no Facebook, e um comentário diz que uma senhora tem um filho de 27 anos que só pára de jogar videojogos para trabalhar e que não faz companhia a ninguém. Neste comentário o Dr. tem argumentos para dizer “o problema aí, além de não fazer companhia a ninguém, ele próprio precisava da companhia de alguém para se desenvolver”. Mas seguidamente, aparece outro comentário, onde um rapaz diz que aprendeu mais nos videojogos do que na vida em si, como aprender a falar inglês, a desenvolver o seu intelecto, etc. Dado este comentário, o psicólogo diz “sim, mas se depois se o Manuel Luis for ver no YouTube, os vídeos que lá puseram…” Onde está o argumento em relação ao que o rapaz que aprendeu com os videojogos? O Dr. desviou a conversa para fazer uns queixumes relativamente aos video blogues que muitos Youtubers fizeram em relação aos argumentos de Quintino há uns meses. Onde está o seu poder de argumentação? Andou a jogar uns videojogos e perdeu as suas capacidades de sociabilização? O senhor critica os Youtubers pela sua dificuldade em argumentar e abstrair, mas acabou de fugir a um argumento.

Esta é a parte que estava desejoso por escrever e passo a explicar porquê: Quintino Aires afirma fazer a sua pesquisa no YouTube para ver o que as pessoas diziam dele, e assumimos que tenha feito o mesmo para blogues, sites e redes sociais. Contudo, eu que escrevi o outro artigo da sua pessoa, não fui por ele reconhecido na 1UP Gaming Lounge, estando eu a centímetros dele e a falar com ele. Pode haver quem me pergunte o porquê de não o confrontar, ao qual eu respondo que quem me tem de confrontar é o senhor. Eu critiquei os seus argumentos, pus em causa a sua credibilidade por estar em público a dar opiniões e não argumentos fundamentados. Ao que parece a sua pesquisa não foi a suficiente, para ver que na ene3, no final de cada artigo temos o autor do artigo conjuntamente com uma foto do mesmo. Continuando, Quintino pega no meu argumento de que quando estamos a jogar pela internet, não há a expressão facial, essa mesma que segundo o Dr. é fundamental para os humanos aprenderem a interagir. Então e os cegos? O Dr. segue dizendo que o que se está a perder nas crianças de hoje em dia é a falta de interação humana. Isto é uma manipulação e descontextualização daquilo que eu disse, pois o que eu realmente disse foi que a diferença entre jogar online e lado a lado com um amigo, é que online eu não lhe consigo ver a expressão facial, mas se não me tivesse cortado a entrevista a meio, saberiam que na parte que foi cortada eu explico que com um headset eu consigo estar a jogar online com o meu amigo e ouvir as suas emoções através de suspiros, risos e outras reações que ele tenha no momento em que estamos a jogar (quase como um cego faz para ter relações sociais, excluindo o contato físico).

Continuando, Quintino diz que não é contra o videojogo como elemento, mas sim contra o videojogo como vício e como a TVI lhe dá um programa para falar do assunto (neste caso dão-lhe um palco para se manifestar) a pais, avós e tios, o próprio acha por bem comparar uma das maiores indústrias de entretenimento a drogas pesadas. Ou seja, criar uma má interpretação de uma indústria, só porque fica bem para a sua imagem. Interrompendo a Cristina, o Dr. diz que outra coisa que o chateou foi eu ter criticado a sua insistência em usar a marca PlayStation repetidamente para se referir às consolas em geral. Pois bem caro Dr., se o senhor fizesse a sua pesquisa como deveria e como afirma saber, saberia que existem outras marcas, mesmo tendo uma quantidade enorme de pessoas no seu consultório que dizem sempre o mesmo nome, e então teria utilizado o termo correcto.

A certo ponto o Goucha questiona os livros que o Ivan levou (pesquisa) e o Ivan explica que são livros sobre estudos que comprovam que as crianças devem ser acompanhadas em todas as suas atividades, reforçando que há videojogos para todas as faixas etárias. A Cristina pergunta ao Ivan se os videojogos realmente têm a capacidade de estimular a inteligência das crianças e de os ajudar a socializar por estarem expostos a um ambiente de tentativa e erro, para o qual o Ivan tinha à mão um estudo da ISFE (Federação de Software Interativo da Europa), que estuda estes assuntos sobre o consumismo nos videojogos, estudo esse que mostra que os videojogos ajudam os jovens a ser mais proficientes, dando depois exemplo de empresas como a McDonalds, Amazon e Mozilla que utilizam uma divisão de videojogos denominada de Serious Games para ensinar os seus empregados a serem mais eficientes nas suas tarefas diárias. Sendo novamente interrompido por Quintino, este afirma que nesta área ele é o especialista. Ele afirma ser especialista de desenvolvimento cerebral e da personalidade com vários prémios internacionais pelo seu contributo, contudo parece que respeitar a vez de uma pessoa falar não consta dos seus estudos. A sua capacidade de tolerância, saber ouvir e re-argumentar são sem dúvida capacidades que necessitam de ser melhoradas. O Dr. diz que aquilo que o Ivan falou tem dois pontos que merecem ser frisados. Em primeiro lugar, hoje em dia é muito fácil ir a uma universidade e pedir que se faça um estudo para ajudar a vender um produto. Ou seja, se eu estou a entender bem, já que o senhor é psicólogo doutorado, é ainda mais fácil para ele criar conteúdos para vender os seus livros. Em segundo lugar o Dr. diz que se deve analisar como foi feita essa pesquisa, saber qual a metodologia utilizada, e quais os sujeitos que foram utilizados. Ora bem, visto que a ISFE fez este estudo para a Europa e não para vender um produto, mas sim para dar a conhecer um estudo que mostra o impacto que os videojogos têm na sociedade, gostaria de saber se alguém fez alguma avaliação aos seus estudos, já que afirma que existem muitos estudos mal fundamentos em todas as áreas.

Agora é a altura em que se “entorna o caldo”, onde o Goucha pergunta a Quintino se não há nenhum benefício em jogar videojogos, ao qual este responde que não. Ivan, e com razão, diz que aquela resposta é um argumento polémico. É aí que o Dr. mostra arrogância e nítida falta de tolerância e respeito social pelas liberdades dos outros e diz “não é polémico, e não vou discutir consigo porque você não é especialista nesta área, eu posso discutir com os meus pares”. Não é especialista? Volto a relembrar o que o Ivan Barroso faz no dia a dia: historiador de videojogos, escritor de crónicas para o Jornal Público e para a Pushstart, Diretor do curso de videojogos da ETIC.

Continuando, o Dr. diz que os estudos falham em dizer (e peço desculpa porque a partir deste momento o senhor deixa de fazer qualquer tipo de sentido), segundo percebi, é que os videojogos fazem as crianças focar a atenção naquilo que lhes apetece, mas depois na escola, como estão a fazer uma coisa que não lhes apetece, a sua atenção é desviada, e o senhor diz que aqui é onde devemos desenvolver os nossos jovens. O segundo ponto é relacionado com o facto de desenvolver muita atenção, mas depois não desenvolver a capacidade de interagir (e isto é importante frisar esta frase do senhor) “não tem interesse para mim como psicólogo, que alguém desenvolva excessivamente a focar a atenção a coisas que sabem fazer, quando depois não consegue dar-lhe uso no dia a dia”. Ora portanto afinal isto é para o que lhe interessa como psicólogo, caro Dr.? Ou é para informar os pais, avós e tios que assistem ao programa?

O Ivan explica que o estudo que ele estava a mostrar é um estudo credibilizado por várias fontes, daí ele ter a pilha de livros ao lado dele, dizendo também que era para mostrar que não é só um, mas sim vários livros e estudos que chegam à mesma conclusão. Numa altura que caíria bem ao Dr. pegar nos livros e estudos que o Ivan pegou e dar uma vista de olhos nos autores, bibliografias, etc, este decidiu tornar-se ainda menos tolerante dizendo “Vou-lhe dar uma sugestão. Não se meta numa área onde não é especialista”. Isto vindo de um homem que toda a especialidade que tem é de programas de rádio e TV onde fala sobre sexo com adultos e crianças e alguns livros de tópicos distintos, mas nenhum relacionado com videojogos.

Isto segue-se com o Dr. Quintino a “proibir” o Ivan de falar insinuando que ele não é especialista, ao qual o Goucha faz a advertência que não pode monopolizar a conversa como tem feito até ao momento. Aqui Quintino chama a atenção de que se está a falar das vidas das pessoas, seguindo com uma história para empatar tempo, divagando sobre referências sobre a psicologia como ciência, e como tal, quando se fala de algo que envolva a psicologia, isto deve ser feito por dois especialistas, e por sua vez não se pode estar a discutir as influências dos videojogos com alguém que não seja psicólogo. Está visto como o Dr. Quintino Aires ganha os seus argumentos: cruza os braços, faz beicinho e diz que só fala com psicólogos. Seguidamente o Goucha volta a relembrar os livros que o Ivan levou e o Dr. diz que o Ivan poderia ter levado duzentos livros, que continuava a não interessar e volta a referir a sua teoria da quantidade de estudos que existem hoje em dia o que não significa que a metodologia utilizada para esses mesmos estudos, esteja certa, o que  implica que seja preciso outro cientista (psicólogo) para se debater sobre o assunto. Isto é tudo muito bonito quando o senhor nem se dá ao trabalho de ver os factos que lhe são apresentados, porque não tem um colega de profissão ao lado.

Relembro que acima Quintino Aires disse a Goucha que não dá para tirar nenhum benefício dos videojogos e agora o Goucha pergunta se não dá para tirar divertimento dos videojogos, ao qual o Dr. diz que está de acordo e nunca tal questionou, seguido de mais uma comparação à morfina, em que ao fim de um segundo se apercebe que um jogo diverte. Então divertir não é um benefício? Pelo discurso deste senhor ao longo das suas entrevistas, o que ele refuta é que as crianças não se divertem.

É de se frisar que nesta altura do programa, tanto o Goucha, como a Cristina, têm de intervir e “forçar” Quintino Aires a dar pelo menos uns segundos para falar de algo, pois estava a chegar a termos absurdos de uma monopolização que o mesmo estava a fazer do “tempo de antena”. No fundo a entrevista foi transformada pelo Dr. num monólogo egocentrista. Continuando, Goucha fala dos contos infantis que ainda se contam às crianças e que contém um certo nível de crueldade. Contudo, esse facto para o Dr. isso não interessa. Interessa sim é que os contos sejam passados em forma de diálogo às crianças, e quando confrontado com o exemplo da madrasta que envenena a Branca de Neve, isso já é outro capítulo da psicologia que não tem nada a ver.

Mais à frente, naquilo que parece que pode vir a ser o início de um argumento, em que o Dr. Quintino diz ao Ivan que um videojogo pode ser utilizado quando uma criança esteja a descansar um bocado, ou seja, uma pausa, uma moderação que tem sido o argumento que o Ivan tem tentado passar. Mas logo de seguida, Ivan diz que Quintino defende “proibir por completo”, tendo como resposta imediata do Dr.: “naturalmente”. Portanto na mesma sequência, este psicólogo que afirma estar a tentar “educar” os pais, tios e avós contradiz-se.

A Cristina pergunta ao Ivan o que é considerado moderação no que toca a videojogos, ao qual este diz que moderação consiste nos pais não esquecerem os seus papéis enquanto educadores e acompanharem os seus filhos nas suas atividades, sendo que estes deverão interferir caso notem um comportamento excessivo no seu filho. A Cristina pergunta se a criança começar a tomar atitudes violentas, poderá ser considerado um comportamento excessivo. Ivan explica que a palavra violenta é um termo muito forte para o que normalmente acontece, mas foi uma afirmação normal por parte da Cristina, dada a quantidade de pessoas que tentam defender a teoria que os videojogos provocam violência nas crianças. Aqui o Dr. tenta intervir, mas o Goucha fez o gesto que toda a comunidade gamer Portuguesa já andava a pedir, que foi mandá-lo calar-se. Infelizmente a conversa nem durou mais cinco segundos sem que Quintino interrompesse a conversa para mostrar o seu “desagrado” por alguém que não tem formação em psicologia estar a defender teorias psicológicas, dando mais um exemplo absurdo, dizendo que seria a mesma coisa se o Ivan estivesse a falar de medicina e a dizer às pessoas que medicamento tomar. Não, Dr. Quintino não é o mesmo. O Ivan não lucra nada em estar a defender os videojogos, pois ele apenas quer mostrar que é uma industria artística, que tem muitos fatores positivos e que os fatores negativos podem ser facilmente controlados, desde que os pais desempenhem os seus papéis enquanto educadores. Enquanto que se ele estivesse a falar de medicina e a recomendar medicamentos às pessoas, isso sim iria fazer pessoas estarem a comprar algo que lhes prejudicaria a saúde.

Chegamos ao ponto em que Quintino já interrompe os próprios apresentadores do programa para dizer que não tem mal nenhum uma criança exaltar-se a meio de uma atividade. Ivan tenta explicar que ele só mencionou em casos de comportamentos excessivos como levantar-se, mas não pudemos ouvir a continuação do raciocínio do Ivan, pois foi novamente interrompido, e quando o Ivan diz que continua a ser interrompido, o Dr. vangloria-se por ser psicólogo e membro efetivo da ordem dos psicólogos, e que de maneira nenhuma tinha de estar a falar sobre a teoria da psicologia com uma pessoa que não era psicóloga. Gosto especialmente quando Quintino diz que como psicólogo, tem o direito de falar da psicologia dos videojogos, e se o tema fosse apenas videojogos também lhe competia tal direito, por ser um especialista.

Dado isto a Cristina pergunta ao Dr. como é que o Ivan poderia defender os videojogos, visto que se toca sempre em pontos psicológicos. Aparentemente não pode, pois isso compete à psicologia. E para acabar este resumo do programa cito a “conclusão científica” do Dr.: “Quando se fala de psicologia é importante contactarmos um especialista, não adianta trazer centenas de livros… não é a ler livros que se fala em termos da psicologia”.

Ora bem, o que eu posso resumir disto tudo é que o Dr. Quintino Aires finalmente mostrou quem é, e passo a explicar: o programa Você na TV tem um tempo limite de cerca de meia hora, e o Dr. como sendo um convidado frequente tem conhecimento do mesmo. O que nós pudemos verificar foi uma extrema falta de educação e profissionalismo deste psicólogo que monopolizou as falas,  gastou tempo repetindo-se e incluindo exemplos sem sentido nenhum no meio da conversa. Inicialmente vi que o Manuel Luis Goucha e a Cristina Ferreira estavam num termo semi-neutro na discussão, mas devo dizer que fiquei admirado e elogio a atitude de ambos perto do fim ao tentarem mostrar a informação que o Ivan tanto se deu ao trabalho de levar para poder mostrar uma fachada diferente daquela que Quintino mais uma vez tentou encobrir. Depois do programa acabar, as comunidades gamers nas redes sociais ficaram invadidos com títulos de “A TVI ataca de novo”, mas desta vez vou dizer que a culpa não foi da TVI. Quem leu os meus dois últimos artigos sabe que eu falei fortemente sobre o canal por estar a lançar conteúdo sensacionalista, mas desta vez, como tive contacto com os mesmos, apercebi-me que tal como o Ivan foi convidado, Quintino também o é, mas este último é um colaborador do canal, logo é convidado sempre que há um debate em que ele possa intervir. Devo dizer que Quintino Aires explora bem o palco que lhe é dado para impor as suas opiniões, e visto que não queria ser contrariado com factos que pudessem estar contidos nos livros e /ou argumentos que o Ivan tinha preparado, o Dr. mostrou a sua falta de profissionalismo, especialmente porque na profissão de um psicólogo, este deve prestar mais atenção ao que lhe é dito e não bloquear o que quer que seja que alguém tem para lhe dizer. Chegou ao ponto de dizer que se recusava a falar com alguém que não fosse um par seu, pois assim não teria de responder a estudos nem argumentos na hora. Argumentum ad hominem, foi o que nós pudemos ver hoje, tendo o Dr. mostrado que estava mais preocupado em perder tempo enrolado nas suas teorias e atacar o Ivan e não nos seus argumentos. Na sua cabeça Quintino pode pensar que “ganhou” a discussão, mas quem viu bem o que aconteceu viu perfeitamente que o que o senhor fez foi uma total falta de respeito pelo Ivan, que não sendo um especialista em psicologia, mas sim de videojogos, que era sobre o que supostamente deveriam ter falado caso o Dr. não tivesse desviado todas as conversas. Ivan provou que se deu ao trabalho de ir preparado com conteúdos sobre o que pensou, viria a ser um troca de argumentos entre cavalheiros. Isto não pode acontecer porque o Dr. Quintino defende que a teoria da psicologia apenas pode ser debatida por experientes na área, mas então vai-me explicar como isso funciona, visto que quase todas as áreas da vida têm uma vertente psicológica. Um casal que tenha um filho e queira interagir com o mesmo tem de ter um curso em psicologia? Ou terá de contactar um psicólogo? Talvez a segunda opção já lhe meta uns trocos no bolso, e sendo assim parece que afinal quem gosta de criar argumentos para vender o seu produto é o próprio Quintino. Agradeço-lhe desde já, pois hoje tive a oportunidade de ver no Facebook da Cristina, do Goucha e do Você na TV, nomes de pessoas, que decorei da primeira vez, que o defendiam e hoje foram mostrar o seu desagrado perante a falta de savoir faire que o senhor demonstrou. Visto que não sabia quem eu era na 1UP, ou se sabia, fez papel como se não soubesse, o que me levará a questionar o porquê, deixo em aberto o desafio que eu e o José da 1Up Gaming Lounge lhe propusemos antes e o qual recusou: Sente-se ao pé de nós e vamos jogar um jogo, pois temos a certeza que você nunca tocou num videojogo, e caso tenha tocado anteriormente, só fará de si um hipócrita. Relembro-lhe que ser um psicólogo não lhe dá um conhecimento de todas as áreas do conhecimento, tal como eu como Designer não me dá competências para todas as áreas, mas sim para a minha especialização em Design Gráfico. Contudo enquanto gamer de longa data, tenho de facto por leituras de estudos que consultei, bem maiores competências que o Dr. para falar sobre os videojogos na 1ª pessoa, dos seus impactos, dos seus pontos positivos e negativos.

Outro ponto que gostaria de acrescentar é o seguinte:  a todas as pessoas que aparecem pelas redes sociais a “apoiar” o Dr. Quintino porque ele tem razão quando diz que os videojogos são viciantes, eu digo-vos para verem bem aquilo que vocês fazem enquanto pais. Se o vosso filho está agarrado a uma consola o dia todo, lembrem-se que são vocês que o permitem, são vocês que compram os jogos para os vossos filhos… Quando vocês vão à loja e compram um jogo, tenham em atenção o selo PEGI (Pan European Game Information). E quando compram esse mesmo jogo aos vossos filhos, dão-se ao trabalho de estar a acompanhar a atividade deles, ou simplesmente “têm mais que fazer”? Lembrem-se que pelo menos até aos 18 anos, vocês são responsáveis por guiar, educar e traçar limites para os vossos filhos, e se compram jogos aos vossos filhos para depois irem às redes sociais fazer um choradinho porque ele está a jogar, então só estão a mostrar como estão a falhar enquanto pais. Nunca na minha vida tive uma falha de contacto com os meus pais! Pergunto-vos se realmente se preocupam em delinear limites para os filhos, ou se são apenas mais uns dos que usam os videojogos como babysitter, e depois queixam-se quando o vosso filho não segue os padrões que vocês nunca estabeleceram.

Quantas disputas se teriam resolvido, se os oponentes tivessem ousado definir as suas premissas

Aristóteles, o pai da Psicologia

Deixo também em aberto que o Você na TV convide o tal psicólogo que o Ivan recomendou, e o qual eu deixo aqui um vídeo do mesmo a falar sobre videojogos:

No meu artigo anterior, recebi criticas de que exprimo muitas criticas mas não coloco estudos/elementos que ajudem a contra-argumentar algumas coisas que são apresentadas pelo Dr. Quintino Aires. Deixo então alguns links de estudos e artigos relacionados com os videojogos:

Têm aqui a entrevista completa:

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