26 Mai 2020
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O Velho do Restelo: Um Adeus ao Jogo Físico

A semana passada fiz algo que não fazia à muito. Abri a caixa de um jogo a sério. E não era uma caixa qualquer. Era a edição de colecionador do Witcher 2.


velhor-restelo-digital_1Sou um jogador de PC. Sou um jogador de PC porque busco sempre a opção de maior qualidade, maior liberdade, maior variedade. Nem sempre a plataforma me dá isso, mas até à data, os prós têm superado os contras.

Há, no entanto, coisas que me custaram. O mais obvio é o drm. A maioria dos jogos de PC têm que ser ativados online e não podem ser revendidos. Se uma companhia falir, os servidores de ativação fecharem, então o jogo é uma caixa inútil na prateleira.

Mas o sacrifício vai para além da perda de direitos do consumidor.

Voltemos à minha edição de colecionador do Witcher 2. Ali está a caixa na prateleira, enorme e negra, com a imagem de um focinho de lobo metálico estampado. Abro-a, e sou presenteado com um livro, a sua capa dura, aveludada ao tacto.

Longe de ser apenas um conjunto de imagens desconexas, o livro são mais de 200 páginas a descrever o crescimento do jogo desde a parte conceptual até ao produto final. A impressão é de alta qualidade. O papel é rijo e tem aquele cheiro a livro novo. Se fosse um PDF no meu iPad, não era a mesma coisa.

Por baixo está um busto de Geralt, o protagonista. Dignificado em cerâmica branca, ligeiramente maior que um punho fechado, uma inscrição abaixo do pescoço lê “Gwynbleidd“, a palavra da língua antiga para “lobo branco”. É pesado, maciço.

Ao seu lado moram, entre outras coisas, um baralho de cartas e um conjunto de dados, detalhadamente elaborados, acompanhados de um livrete que descreve como jogar alguns jogos populares. O livrete está escrito na primeira pessoa, por parte de um bardo famoso no mundo do jogo; as cartas cheiram a novas, fazendo-me recordar os meus tempos de jogador e colecionador de Magic The Gathering.

Gostamos de dizer que os jogos são arte. E no entanto rapidamente os tratamos e aceitamos como comodidades, como lenços de papel descartável. Procuramos o mais barato e se isso significa “ter” o jogo apenas como uma imagem no nosso computador ou consola, uma amálgama de bits e bytes que vive na rede e nos discos-rígidos, que seja.

A arte de um jogo vive também fora do que aparece no ecrã. Um manual bonito e elaborado; uma caixa com boa arte; um mapa para meter na parede, para onde podemos olhar e recordar aventuras passadas em mundos distantes. Quantos de nós não se lembram de namorar à distância a caixa de um jogo que não podíamos comprar? De olhar para as fotografias na parte de trás da caixa e imaginar aventuras em igual?

Ser humano significa ter gosto na posse. Gostamos de ter objetos. Gostamos de sentir e apreciar objetos. Objectos auxiliam a nossa memória, e ajudam-nos a reviver emoções.

Não meti o DVD do Witcher 2 no PC. Foi mais conveniente fazer o download  do instalador da gog.com, já com todas as atualizações pré-instaladas. Mas muito contente estou por ter comprado a edição especial. O meu tempo para jogar tem sido limitado, e já tirei mais prazer das “entradas” do que do prato principal.

O futuro, dizem-nos as editoras, é o digital, em que tudo está na nuvem, à distância de um clique. Em que compramos licenças para consumir os nossos jogos,em vez de comprarmos o jogo em si. Um futuro em que o DVD é apenas um método de transporte de dados, e não o produto em si.

Parece-me um futuro conveniente, sim, mas a que preço, não sei. Sei apenas que vou ter saudades destas caixas e dos seus conteúdos.

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