26 Nov 2020
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Em Busca da Qualidade

Foi em 1990 que vi o meu primeiro bug gráfico. Foi no jogo James Pond 2: Robocod, no Commodore Amiga. Talvez por ser uma versão pirata, um dos inimigos tinha-se transformado num quadrado disforme de pixeis de várias cores.

Achei mais curioso do que chato. Não posso dizer que me tenha incomodado.

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Um ano depois, tinha sido oferecida ao meu irmão uma Mega Drive. Estava a jogar Streets of Rage quando observei um fenómeno parecido. Por alguma razão – talvez por a consola ser do meu irmão – senti que era um sinal da fraca qualidade da consola quando comparado ao poder do computador.

Mas um pouco mais de observação fez-me engolir as palavras. Não era um bug – eram as luzes da cidade no pano de fundo, quando vistas através de uma rede metálica. O que eu tinha acusado de ser um bug gráfico era na realidade um sinal de poderio gráfico como nunca me tinha passado à frente.

Foi esta a primeira de muitas experiências que me levaram a concluir, anos mais tarde, que a qualidade era uma coisa subjectiva, ou que, pelo menos, não podia ser apreciada sem alguma predisposição ou a devida atenção. Sem este “paladar”  podia ser facilmente confundida com o oposto – um defeito.

Mais um exemplo: The Story of Thor, um jogo lançado para a Mega Drive em ’95. Quando andava com o personagem por um desfiladeiro com cataratas, volta e meia o som de uma catarata desaparecia de uma das colunas. Um bug de som, pensei eu. Fraca qualidade. Mas não – com uma observação mais cautelosa, andando para trás e para a frente, verifiquei que o som desaparecia na medida e direcção em que eu me afastava da catarata.

Não era um bug, foi isso sim a primeira vez que eu me apercebi do valor do som estéreo.

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Agora vamos dar um salto até 1999, vésperas de lançamento de Final Fantasy VIII nos EUA. Não tinha como esperar pelo lançamento Europeu. Parecia uma eternidade. Era fundamental chipar a PlayStation e arranjar uma cópia pirata do jogo Americano – mesmo tendo pré-encomendado a edição de coleccionador Europeia, ainda hoje um dos troféus da minha colecção.

Consequentemente, já que tinha a consola chipada e acesso decente a amigos com muitos jogos pirateados, acabei por acumular uma biblioteca de centenas de jogos piratas. Experimentava um, jogava 20 ou 30 minutos ou uma hora, e descartava – tinha outros para experimentar. Era como um daqueles buffets em que um gajo come de tudo mas não aprecia nada. Foi das épocas em que mais perdi o interesse por jogos.

Foi aí que aprendi uma lição importante, que só recentemente interiorizei: a Qualidade é muito mais importante que a quantidade.

Não quero com isto dizer que um original é inerentemente superior a uma cópia pirata. Pelo contrário, muitas vezes as formas ilegais de jogar são as que nos providenciam melhor qualidade. Quando chegou a minha edição de coleccionador, esta lição foi enfatizada: a versão Europeia era, depois de experimentada a Americana, injogável. Os gráficos estavam deformados, cortesia de duas barras negras no topo e fundo do ecrã, e as personagens mexiam-se como astronautas a caminhar na lua, virtude da conversão para os 50hz Europeus. Provavelmente nunca me teria incomodado se não tivesse jogado a versão americana.

Mais uma vez, aquela lição: a definição de qualidade evoluí com a nossa experiência. A ignorância do melhor ajuda-nos a ficar satisfeitos com o pior.

Às vezes, para o olhar destreinado, a falta de qualidade pode se fazer passar por qualidade. Assim o foi quando eu via o Templo dos Jogos, em 1996, a passar vídeo do jogo Crusader: No Regret. Os gráficos eram lindos, mas soluçavam um pouco (na altura não sabia o que era “frame-rate“). Para mim aquilo era o topo dos topos, o zénite da tecnologia – e os soluços até pareciam ser parte importante da experiência.

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Um salto maior, agora: 2009. Acabado de sair da faculdade, acabado de assinar contrato para um emprego estável. O ordenado não era nada de especial, mas eu vivia com os meus pais e não tinha despesas. Até à data tinha feito suficiente em part-times e prendas de anos e Natal para ir comprando as consolas que queria e mantendo um PC de gama média-alta. Mas agora as consolas já começavam a dar sinal de alguma idade, e não havia novidades à vista. Tinha dinheiro, e era altura de começar a investir.

O primeiro passo foi uma TV LED grande, de um metro e picos de diâmetro. 1080p e 3D, claro.

Os jogos, mesmo os das consolas, ganharam outra vida. A maior parte das pessoas, descobri eu, foca-se apenas no poder técnico do hardware, mas depois aplica-o sobre um ecrã de segunda. É o mesmo que comprar um BMW para ir cabrar.

O ecrã importa muito, descobri eu. E igualmente importante é perder tempo para calibrar a imagem ao nosso gosto – as calibrações por defeito deixam muito a desejar. Os guias online são um bom ponto de partida, mas os olhos de cada pessoa, e mesmo as condições de luz da sala ou quarto, são variáveis que fazem muita diferença. Mais uma vez, a Qualidade depende do observador.

A qualidade sonora foi o que se seguiu. Nesta eu já estava devidamente educado: aquela experiência inicial com The Story of Thor foi marcante e levou-me desde muito cedo a apreciar a qualidade do som nos meus jogos.

Já em 2002 tinha passado um ano a juntar para comprar um conjunto Dolby Surround: O Creative Inspire Digital 5.1 5500, que para mim é hoje uma das melhores compras que fiz na minha vida. Mantém-se compatível com todas as consolas e placas de som que comprei até hoje, e num estado plenamente funcional de alta qualidade, mesmo 12 anos depois. Duvido que daqui a 12 anos possa dizer o mesmo de qualquer coisa que tenha comprado entretanto.

Uma lição intermédia aqui: apesar de nem sempre preço ser igual a qualidade, vale sempre a pena investir em  material qualidade, pois dura muito mais e a longo prazo vai ser mais económico do que estar sempre a substituir ou reparar produtos inferiores.

Mas voltando ao som: há alguns inconvenientes num sistema de 5.1. Jogar até tarde sem incomodar os outros, ou jogar online e querer falar com alguém. Impunha-se arranjar uns auscultadores. Experimentei ao longo de dois meses vários auscultadores especificos para jogos. Até algumas soluções de centenas de euros com 7.1 simulado. Até considerei um sistema de pós-processamento que convertia o sinal 5.1 das consolas em estéreo surround para os auscultadores.

O que eu descobri é que todas estas soluções ficam com compromissos de distorção sonora. Os poucos auscultadores que têm efectivamente várias saídas de som por ouvido e assim se aproximam do verdadeiro “surround” têm que comprometer o tamanho dos componentes, e assim, a qualidade individual.

Por sugestão de um colega, fui experimentar auscultadores audiófilos de gama profissional. Nada preparados para jogos, estavam preparados para o que interessa: qualidade sonora. Eram puramente estéreo, mas de tal qualidade que, quando a qualidade sonora dos jogos é alta, consegue-se perceber na mesma o áudio posicional, sem qualquer tipo de conversão e consequente distorção.

Acabei por me decidir por uns belíssimos DT 990 Pro da Beyerdynamic, e acho que se possuo hoje algo que possa talvez competir com as minhas colunas em termos de duração, serão eles. São bonitos, confortáveis, e o som é de excelência. São um produto de Qualidade num universo de produtos descartáveis. Ao contrário de quase todos os outros que testei, com estes consigo claramente distinguir a diferença entre um bom MP3 e um Flac sem qualquer compressão.

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A nova lição sobre Qualidade: A Qualidade é especifica, ou seja, encontra-se em produtos direccionados para um único e singular propósito. Neste caso, som imaculado. Adereços – como 5.1 simulado, ligações USB e placas de som integradas, leds, microfones, etc., subtraem da qualidade.

Não estou a capitalizar Qualidade por acaso. Todo o artigo foi um caminho para chegar aqui, onde quero partilhar a filosofia que fui construindo ao longo da minha experiência, e que aplico à forma como jogo. Mas antes falta uma última peça do puzzle. Um pouco acerca de mim.

Por esta hora estão a pensar: “Este gajo é rico, por isso consegue comprar estas coisas todas e ser elitista.”

É longe da verdade. Permitam-me explicar:

Tenho um emprego moderadamente estável que paga acima da média, mas estou longe de ser rico. No final do mês faço as contas como toda a gente, e tenho que planear as minhas compras e os meus gastos. Já não vivo com os pais e tenho responsabilidades para cumprir. Trabalho bastante – por vezes 10 ou 12 horas por dia. Tenho 31 anos e vivo com a minha namorada, e filhos começam a ser uma possibilidade distinta.

Portanto tenho dinheiro – nem muito nem pouco, o suficiente – mas o que não tenho é Tempo. Que se pensarmos bem, é bem mais valioso do que o dinheiro, porque um se pode ganhar ou recuperar e o outro não.

Acredito que muitos que, como eu, cresceram com os jogos e estão por volta da minha idade, sintam o mesmo. Quando éramos jovens, o dinheiro era pouco mas o tempo era muito. Era uma época propícia a uma grande quantidade de experiências com falta de Qualidade.

Hoje, acontece o inverso – mas a maioria de nós continua a procurar quantidade sobre qualidade como quando éramos jovens. E assim, mantêm-se a leste de uma filosofia de vida muito mais agradável e eminentemente pratica: o minimalismo relativo.

Há quatro coisas de que gosto mais do que qualquer outra coisa: ler e escrever; trabalhar; jogar; e ir a sítios interessantes com a minha namorada. Acabou ai. Não tenho interesse em ver televisão. Não tenho interesse em ir a concertos. Não tenho interesse em ter um carro de luxo ou uma mansão com piscina. Não tenho interesse em jantar fora todas as sextas-feiras ou ir para a discoteca ou bar – acho muito mais interessante experimentar um restaurante gourmet uma vez por mês. Não preciso de roupas vistosas todas as estações – uso as minhas enquanto têm bom aspecto.

É esta a filosofia da Qualidade: gastar abundantemente, tanto tempo como dinheiro, num conjunto muito restrito de coisas Importantes, em Qualidade máxima, e poupar impiedosamente em tudo o resto.

Não vou ter tempo para jogar todos os jogos que quero jogar. Todos os meses saem mais bons jogos do que consigo jogar. Tenho que escolher. E se só posso jogar alguns, quero jogá-los nas melhores condições possíveis. Para mim, é melhor valor gastar 500€ numa placa gráfica para jogar um jogo como Skyrim ou The Witcher 3 no topo do seu potencial, do que em 10 jogos diferentes.

É por isso que adoro a ideia de sistemas de luxo como o Analogue NT, ou acessórios como o Framemeister, dedicados a maximizar a experiência de jogar jogos antigos, em vez de os tratar como uma experiência descartável de 5€ como o fazem as lojas da PSN, Nintendo Online, Xbox Live ou Steam, com emulação de fraca qualidade e desadaptados da realidade corrente.

A filosofia de Qualidade é uma filosofia de extrema exigência em tudo o que consumo, porque fazer algo de baixa qualidade está-me a gastar tempo e dinheiro que poderia ser investido numa experiência de Alta Qualidade.

É por isso que fico triste quando falo com o meu colega André Henriques e ele refila comigo porque eu critico o Destiny por correr a 30 fps. Ele pode ainda não ter desenvolvido o seu paladar, e estar habituado a jogar a frame-rates inferiores – também eu um belo dia achei que o Crusader: No Regret a correr no PC ranhoso do Templo dos Jogos era o melhor – mas quando meu dia-a-dia de jogo é vivido no PC a 1080p e 60FPS, faz-me impressão transitar para Destiny.

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É um jogo excelente e já o tenho encomendado e vou jogá-lo, mas sempre que lhe ponho as mãos preciso de uns minutos para me ajustar. O meu “normal” de Qualidade é muito acima. É a diferença entre quem jogou o Final Fantasy VIII pela primeira vez a 60Hz e sem bordos pretos, e quem depois só pegou na versão Europeia com os astronautas achatados.

O que quero dizer é isto: este foi o caminho que escolhi seguir, a filosofia que desenvolvi e por onde me guio.

Qualidade à frente da quantidade.

Acredito que não fará sentido para muitos, mais jovens, que leiam estas linhas. Mas também acredito que os mais velhos, talvez alguns que estejam a ponderar deixar este passatempo dos jogos, se revejam nas minhas experiências e conclusões.

A vossa vida é finita. O vosso tempo vai-se todos os dias. Seja em termos de jogos ou qualquer outra coisa, exijam-se a vós próprios preenchê-la com experiências de Qualidade.

 

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