24 Jan 2021
PS3

Análise: Kingdom Hearts – HD 1.5 ReMIX –

Mundos animados colidem quando duas companhias históricas unem esforços.

Passados 11 anos, Kingdom Hearts continua a ser uma coisa tão estranha que me surpreende a sua existência.

Não sei como é possível, que a tipicamente fechada Square-Enix – suspeita de qualquer interacção ou colaboração com o Ocidente – e o colossal império Disney – super protector das suas marcas e personagens  – tenham chegado a acordo para unir as suas forças naquilo que se iria tornar como uma das séries mais queridas dos fãs de jogos de ambas as companhias.

Mas chegaram. Deve ter sido um pesadelo, negociar todos os direitos de autor, contactar todos os actores que deram as vozes aos personagens. Mas fizeram-no. Fizeram-no, e foi um sucesso descomunal, ameaçando mesmo a mítica série Final Fantasy pela posição de jóia da coroa da Square-Enix.

Passados 11 anos, o primeiro jogo tem direito ao tratamento HD, e vem acompanhado por duas entradas menos conhecidas…

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Kingdom Hearts: Final Mix

Final Mix é a versão do jogo que só saiu no Japão, mas o conteúdo adicional é muito pouco – a coisa mais importante foi a adição, para os japoneses, dos bosses previamente exclusivos às versões ocidentais. De resto, temos algumas armas e acessórios que só os jogadores mais dedicados encontrarão, e um par de curtas sequências cinematográficas que fazem uma melhor ligação com o argumento de Kingdom Hearts II.

Não, o que interessa aqui realmente são os gráficos actualizados, e o resultado é… Decente.

O estilo “desenho animado” beneficia do aumento de resolução, e o jogo corre a uns gloriosos 1080p e 60fps, assenta muito bem num grande monitor ou LED. Só que, aqui e ali, continuam a notar-se muitas texturas de fraca qualidade.

Para um jogo a que os fãs têm tanto carinho, esperava um tratamento um pouco mais luxuoso.

E que tal jogá-lo? Nesse ponto, as coisas pioram. É um jogo com 11 anos, e não envelheceu mal, mas também não o fez de forma graciosa.

Há 11 anos estávamos conformados e habituados às más câmaras. Hoje, custa a engolir uma câmara que parece que luta activamente contra nós para nos impedir de ver os inimigos. Mas tudo bem, o combate – focado na acção – do jogo oferece técnicas evasivas e defensivas que permitem eliminar um pouco esta desvantagem. É só estar sempre em movimento.

Menos engraçado é navegar as secções de plataformas. Não me lembrava que este jogo tinha tanto que saltar, mas oh se tem! Muitos saltos para dar, com um salto horrível, pouco responsivo, que parece que só acontece um décimo de segundo depois de se carregar no botão, suficiente para nos mandarmos da plataforma abaixo. Já mencionei como a câmara luta connosco o tempo todo?

A própria progressão pelos níveis não é interessante. Vai-se a uma sala, acontece algo, depois anda-se entre uma mão-cheia de salas interligadas a matar inimigos até surgir uma nova cena. Raramente há alguma lógica que ligue o sitio onde estamos ao sítio onde devemos ir para avançar a história. É mesmo uma questão de visitar cada sala novamente depois de cada cena, em busca da sequência.

Salva o jogo o ambiente, e, em menor escala, a história. Quanto mais fã se fôr da Square, da Disney, ou de ambas, maior o gosto em conhecer e interagir com tantas personagens de tantos filmes e jogos favoritos. E mesmo visitar os cenários dos filmes mais populares da Disney, em versão interactiva, é giro – se bem que alguns são limitados a apenas um par de salas.

A história é interessante, se bem que um pouco diluída por entre todas as pequenas narrativas que resumem a história do filme que é representado por cada mundo. É uma história mais pessoal, mas centrada nas personagens, do que o típico RPG da produtora de Final Fantasy, e como a maioria das histórias de jogo japonês, tem uma boa dose de incoerências que só estragam o gozo se pensarmos muito nelas.

Ah, e também há um mini-jogo semi-obrigatório entre níveis, um shooter 3D em que conduzimos uma nave espacial personalizável de um mundo ao outro. Sempre o achei a parte mais fraca do jogo original, e curiosamente, acho-o muito mais suportável agora que está em HD.

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Kingdom Hearts RE: Chain of Memories

Agora já conversamos melhor. Chain of Memories é uma conversão do remake PS2 de um jogo GameBoy Advance. O jogo GBA foi lançado na Europa, mas a versão PS2 nunca foi – esta é a nossa primeira exposição ao jogo.

A premissa é simples – dando sequência ao final de Kingdom Hearts, e fazendo parte da ponte para o Kingdom Hearts II, os heróis visitam o Castelo Oblivion, onde as memórias de Sora são postas à prova. O castelo muda a sua forma e aparência de acordo com as memórias de quem o visita.

Isto é uma desculpa conveniente para recapitular os acontecimentos do primeiro jogo e fazer um jogo “barato” reciclando arte e personagens desse mesmo jogo. Sim, depois de mais de 40 horas de Kingdom Hearts, vamos voltar a ver os mesmos cenários e interagir com as mesmas personagens e lutar contra os mesmos inimigos e bosses.

Por isso, o jogo, claro, perde muito se for jogado logo a seguir, ou ao mesmo tempo, que o anterior. Para escrever esta análise tive que o fazer, mas recomendo uma pausa de um mês ou assim entre eles – vão ter muito mais gozo.

Porque, sem dúvida, este é um jogo muito mais moderno do que o anterior. O combate mantêm-se num sistema de acção, mas agora passa-se em ambientes mais abertos, onde a câmara não complica tanto, e usa um sistema complexo de cartas. Cada acção, seja ela chamar um aliado, lançar um feitiço, ou fazer um ataque, é representada por uma carta, e usar as cartas na sequência certa ou em combinação é decisivo para o sucesso nas batalhas.

Destruir inimigos desta forma desbloqueia cartas de mundo, que são usadas para construir os níveis. No inicio, estamos numa única sala, e ao, chegar a uma porta de saída, escolhemos uma ou uma combinação de cartas de mundo – estas vão definir a próxima sala.

Por exemplo, podemos usar uma carta de “escuridão preguiçosa” para que a próxima sala tenha inimigos que se movem mais devagar e são mais fáceis de evitar. Ou uma carta de “porto seguro” para ter a certeza que na próxima sala existe um ponto para gravar.

Assim, temos influência directa sobre o formato dos níveis e os desafios que enfrentamos.

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Kingdom Hearts 358/2 Days

Também é parte do pacote, mas infelizmente, não estamos perante um remake do jogo de Nintendo DS.

“Infelizmente” talvez seja exagero. O jogo é dos mais fracos da série, demasiado repetitivo e, mais uma vez, com uma câmara frustrante.

O que aqui temos é um remaster HD das sequências cinematográficas desse jogo, que dão algumas luzes acerca das personalidades e motivações dos membros da Organização, os principais adversários em Kingdom Hearts 2. Assim, fica completa a (por vezes confusa) ligação entre os dois principais jogos da série Kingdom Hearts.

O ReMIX, como um todo

É um pacote bastante completo, este que a Square-Enix nos apresenta. É uma pena que um terço não tenha envelhecido bem, e o outro terço não seja interactivo.

Vale a compra especialmente devido a Chains of Memories, a que nós Europeus nunca tivemos acesso nesta forma, e que é um jogo bastante bom.

Não que o Kingdom Hearts original não tenha o seu charme – continua a ser um jogo cheio de variedade e momentos deliciosos, especialmente para quem cresceu com as personagens da Disney. É só que algumas partes são difíceis de aturar para quem está agora habituado a experiências mais modernas e fluídas. Há jogos antigos que se revelam irrepreensiveis mesmo depois de uma década ou duas, mas este não é um deles.

Mantenham isso em mente se for o saudosismo que vos complete a comprar esta colectânea.

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Pontos positivos:

  • Horas e horas e horas de jogo

  • Um jogo nunca lançado na Europa

  • Kingdom Hearts nunca teve tão bom aspecto

Pontos negativos:

  • Mecânicas de jogo datadas, que envelheceram mal

  • Pouco a oferecer a quem não tenha especial carinho pelas personagens

Esta análise de Kingdom Hears 1.5 HD ReMIX foi feita com base numa versão do jogo que o autor comprou com os seus próprios fundos. Foi jogada numa PlayStation 3 original com um disco rígido personalizado de 7.200 RPM, num televisor LED que suporta a resolução 1080p.

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