Um resumo dos últimos anos.

Eu comecei a envolver-me mais na indústria dos videojogos no ano 2012, por volta desta altura. Com isto não quero indicar que só me comecei a interessar na mesma por volta dessa data, apenas que foi desde essa data que eu me juntei ao projeto da ENE3.

Foi o início da minha carreira como “jornalista” amador, sendo que não passava de um entusiasta de videojogos com uma plataforma que me permitia falar do bom e do mau, fosse da indústria, dos jogos ou de qualquer outra coisa relacionada. Foi através dessa mesma plataforma que me começaram a surgir oportunidades das quais nunca sonhei estarem ao meu alcance. Tanto dentro como fora do nosso país já pude experienciar eventos fechados ao público, visitar estúdios, conhecer e entrevistar game devs e muitas outras coisas.

Isto levou-me a pensar – Como tem sido a evolução dos videojogos em Portugal, nestes últimos anos?

Nos tempos da minha infância, a notoriedade que a indústria tinha era muito escassa, aliás, ainda no outro dia estava a ler uma das minhas edições favoritas da Revista Oficial PlayStation, que tinha uma página de publicidade a anunciar que já tinham sido vendidas 100.000 PlayStations (sim, a primeira) em Portugal. Os videojogos ainda eram um nicho para muitos, e ainda estávamos a uns anos de ver uma generalização completa da indústria.

No entanto a minha intenção é falar destes últimos cinco anos, sendo que já fazemos parte da generalização da indústria, e visto que a cada momento que passa há mais e mais pessoas a jogar videojogos, seja em que plataforma for. Com isto começamos a ver as fontes noticiarias nacionais a ganhar mais interesse na indústria e a investigar o que Portugal tinha para oferecer à mesma.

Hoje podemos ver vários sites que criaram um espaço próprio para falarem de videojogos, como é o caso do PúblicoP3, Observador, RTP, A Bola, Record, e muitos outros, sendo quase inevitável não se falar de videojogos devido ao grande sucesso global que a indústria tem sido nos últimos tempos. Basta ver que os portugueses gastaram 223 milhões de euros em videojogos em sete meses.

Em 2012, pouco se via de estúdios nacionais. Principalmente pelo seu baixo número mas também por ser uma comunidade pequena que ainda não se dava a conhecer. No entanto esse número tem vindo a multiplicar de uma forma abismal graças a uma série de fatores. O mais relevante começa no ensino, onde vimos centros de formação e faculdades a abrir as suas portas a todos os jovens que tivessem interessados em desenvolver capacidades na produção de videojogos. Isto incentivou centenas de jovens a criarem os seus próprios estúdios, tanto pessoais como em equipa, e são esses mesmos que hoje produzem conteúdos que representam a indústria portuguesa de videojogos. Hoje podemos contar com onze cursos específicos de videojogos. O sucesso destes cursos tem sido tanto que a própria Miniclip tem um estúdio em terras lusas, empregando mais de 100 pessoas.

Outro elemento que ajudou bastante foram as empresas. A Sony, Microsoft e Nintendo sempre estiveram presentes no nosso país, no entanto algumas mais que outras. A PlayStation sempre foi uma marca forte no mercado nacional, tanto a nível de vendas como em comunicação social. Sempre que a marca estiver a lançar um novo system seller, garantidamente que iremos ver algo em grande ou espalhafatoso. A Microsoft, em tempos, teve a mesma energia para dar a conhecer o nome Xbox em Portugal, mas infelizmente, nos últimos tempos a maior jogada de marketing que temos visto por parte da empresa é a sua presença no Lisboa Games Week. A Nintendo tem sido uma constante, promovendo sempre todo o hardware e software, garantido sempre que a informação chegue ao publico através dos meios especializados, e agora com a sua consola mais recente, a Nintendo Switch, através dos meios televisivos.

A PlayStation foi a que deu o passo mais longo com a introdução dos Prémios PlayStation, permitindo e ajudando os game devs nacionais produzirem um jogo para a marca PlayStation, sendo o exemplo perfeito disto o Strikers Edge da Fun Punch Games que tem sido um sucesso com o público em todos os eventos internacionais, onde marcaram presença. Temos também o VRock, que venceu a segunda edição.

No entanto, temos o caso do David Amador, produtor do Quest of Dungeons, que neste momento se encontra disponível para Mobile, Pc, Xbox One, PlayStation 4, Wii U, 3DS e já se encontra na Nintendo Switch, no Japão. Por isso não deve demorar muito até começarmos a ver outros jogos nacionais a seguirem o mesmo caminho, sendo que as três empresas têm demonstrado interesse em apoiar os produtores nacionais. A Tio Atum também é um caso de sucesso no que toca a crowdfunding, tendo acabado de lançar o Greedy Guns que tem apelado a pessoas em cada canto do mundo.

Mas nem tudo tem de ser 100% nacional. Com todo o furor à volta da indústria, muitos nomes começaram a surgir, nomeadamente em equipas estrangeiras. Um exemplo disto é o José Teixeira, cujo seu trabalho ficou marcado em jogos como Bulletstorm, Gears of War: Judegement e, mais recentemente, The Witcher 3: Wild Hunt. Temos também o João Sapiro (Overwatch) e Hélder Pinto que estão na Blizzard e o Luis António que esteve no projeto do The Witness e que neste momento se encontra a trabalhar no 12 minutes. Estes são alguns dos nomes que mais vi aparecer, fora as centenas de outros game devs que devem existir em empresas internacionais.

O terceiro elemento que tem ajudado a crescer o número de game devs nacionais foram os eventos. Neste momento a caminho da sua quarta edição, o Lisboa Games Week foi um dos fatores mais responsáveis por expor os videojogos nacionais ao público. Tendo em conta que na primeira edição estavam enfiados num canto com meia dúzia de mesas, nesta última já os pudemos ver num espaço mais amplo, organizado e dedicado a eles (Indie Dome). Para não falar que o número de participantes foi mais do que o triplo. Embora a Comic Con Portugal não seja um evento dedicado exclusivamente a videojogos, também foi responsável por dar espaço aos produtores nacionais exporem os seus jogos.

Estes dois são os que 90% da população conhece, sendo que ao longo do ano são feitos vários Game Dev Meets (última sexta feira do mês) Camps (evento anual) onde os game devs nacionais se juntam de norte a sul do país para trabalharem juntos, receber feedback e ajuda, trocar ideias e aprender novas técnicas de produção. Isto tudo graças às pessoas da indústria e às entidades que cederam o seu tempo e espaço, permitindo à comunidade de game devs evoluir como um todo. Os grupos do Facebook para os mesmos também têm servido este propósito, mas de uma maneira mais constante.

Do meu ponto de vista, tem sido uma experiência bastante interessante estar na bancada a ver a indústria toda evoluir como um todo, sendo quase impossível ver um caso onde houve uma evolução de uma parte sem haver nas outras todas. Neste momento Portugal tem mais de sessenta estúdios a produzir videojogos, cerca de vinte instituições com cursos de videojogos cerca de três eventos que ajudam a promover tanto conteúdo nacional, como internacional, dezenas de sites, constituído por equipas que trabalham diariamente para dar a conhecer todas as informações da indústria e obviamente, um mercado com muita procura e interesse.

Infelizmente nem tudo tem sido perfeito, sendo que os meios de comunicação têm-se inclinado cada vez mais para o digital, o que levou a que tenhamos perdido o formato em papel. Apenas temos a Revista PushStart que é lançada de tempos a tempos, embora o seu conteúdo seja mais geral e retro, do que propriamente notícias atuais. O pouco que encontramos são revistas internacionais e mesmo assim não é em qualquer papelaria. Tudo bem que vivemos na era digital em que é mais fácil ter tudo online onde as pessoas podem ficar a par das últimas informações através do seu tablet ou telefone, no entanto creio que haja um certo charme no formato papel, que o digital não consegue replicar. De se lembrar que em tempos encontrávamos cerca de tipos de revistas diferentes escritas em Portugal.

Outro défice tem sido no financiamento para a indústria. O governo português ainda não fez o seu papel para tentar perceber qual é o potencial e valor da indústria, sendo que o próprio não demonstra uma iniciativa específica para a mesma. Tudo bem, temos vários planos para startups, concursos públicos e outro tipo de coisas do género, mas até há data o governo apenas se tem preocupado com videojogos quando estes demonstram algum indício de sucesso, de modo a poderem lucrar com isso. Não arriscam, nem querem. Se pegarmos, por exemplo, na CD Projekt Red e virmos o apoio que teve do governo polaco, ao mesmo tempo que olhamos para o sucesso dos seus jogos, não é preciso muito para perceber que com o apoio certo, muito se pode fazer. Até o valor da própria empresa já é de se mencionar.

No entanto temos estúdios extremamente talentosos, que até agora demonstraram que tudo é possível com muito esforço, dedicação, persistência e, claro, com algum sacrifício.

Estes últimos cinco anos foram muito bons para Portugal. Evoluímos bastante, e demos provas que não nos ficamos por aqui. A indústria dos videojogos tem-se desenvolvido em todas as frentes, e tudo graças às pessoas que se dedicaram para que isso acontecesse. Pagos, por amor à camisola ou simplesmente a desfrutar do que a indústria tem ara oferecer, estamos todos de parabéns.

Com isto, o meu desejo para daqui a cinco anos é continuar presente neste meio e poder assistir a indústria a evoluir cada vez mais no nosso país.

Se têm interesse em ler toda a história dos videojogos em Portugal, o livro do Nelson Zagalo cobre muito bem todos os eventos e jogos feitos no nosso país.