19 Ago 2018
PC e Mac

O Dragão Eterno: Skyrim no PC Nunca Morrerá

Digamos que tinham que montar o vosso próprio jogo, como mobília do IKEA. Parece estranho? Mas foi precisamente assim que Skyrim me fez voltar a apaixonar pelo PC.

Saído da caixa, qualquer jogo Elder Scrolls exibe um mundo cheio de detalhe onde um jogador se pode perder por horas intermináveis. Eu bem o sei: só na ultima edição, Skyrim, o meu relógio de jogo já marca mais de 200 horas.

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Até aqui, já o jogo se destacou como um dos poucos que merece tamanho investimento de tempo. Mas Skyrim vai mais além. Pelo mais 20 horas passei de volta do jogo, mas fora dele. Não tenho como as medir, mas é uma estimativa conservadora.

Horas a procurar e testar mods. Horas a pesquisar documentos relativos a ficheiros de configuração obscuros. Buscas no Google acerca de como optimizar ao máximo as propriedades da placa gráfica em busca da solução magica que me faria ganhar um pouco de fluidez sem perder qualidade gráfica.

É essa a ridícula e maravilhosa promessa dos jogos da Bethesda no PC: por lindos que sejam no lançamento, a companhia oferece logo à comunidade as ferramentas para fazer melhor. E eles fazem.

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Pacotes gráficos para resoluções muito acima dos 1080p. Armas redesenhadas e animações adicionais para tornar os personagens mais realistas. Um sistema de fome e frio. Um pacote com centenas de condições climatéricas variáveis para o continente. Uma pequena selecção dos mods disponíveis. Há-os para todos os gostos, desde o gráfico ao mecânico, do técnico ao pornográfico. Vejo que alguns modders já lançaram as primeiras texturas a 4k – uma resolução quatro vezes maior que o standard 1080p – adequadas para monitores e televisores que hoje custam mais de 5000€ e só vão estar acessíveis ao comum mortal daqui a uns 4 anos.

Para mim, não é importante mudar profundamente a forma como Skyrim se joga. Posso adicionar uma coisa ou outra, por piada, mas aquilo que quero é mesmo ter o jogo mais bonito possível. Graças à comunidade de modders de Skyrim, consigo levar o meu PC aos limites, e ter um vislumbre da nova geração de jogos meses antes dela chegar oficialmente.

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Mas não estou a ser honesto. Há algo para além disso. Se assim fosse, bastava-me fazer o download de Crysis 3 ou Metro: Last Light, e meter os gráficos no máximo, e já rivalizaria com aquilo que foi mostrado até agora da nova geração de consolas.

Não, há qualquer coisa especial em Skyrim. Devia ser horrível! Ter tanto trabalho para jogar um jogo! Para o lançar, desfrutar dos gráficos divinos durante 30 minutos, e depois dar de caras com o ambiente de trabalho do Windows, o jogo encerrado prematuramente.

Terá sido um conflito entre um dos mais de 100 mods instalados? Uma corrupção dos ficheiros gravados, agora já mais retalhados do que o monstro de Frankenstein? Ou uma das vinte e tal alterações que fiz nos ficheiros de configuração do jogo para ir mais além do que o sistema me permitia?

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E mais uma vez, lanço-me na Internet, encontro novas ferramentas de reparo, leio mais uns fóruns em que me explicam o significado dos códigos arcanos que leio nos ficheiros de diagnóstico. Descubro que os ficheiros originais do jogo estão eles próprios cheios de código redundante que é inofensivo para o jogo-base mas pode causar graves conflitos com alguns mods. Mas que com um certo programa posso limpá-los. E assim encontro-me a ver um tutorial no Youtube onde me explicam como fazê-lo.

O resultado final compensa estas dores de cabeça? Talvez eu esteja a ficar velho. Mas não as consigo ver só como dores de cabeça. É irritante? Sim. Mas ao mesmo tempo, sinto uma grande satisfação. Sinto que passei uma barreira que nem todos conseguem passar, e que o Skyrim magnifico que agora jogo, muito superior à sua encarnação original, é uma delicia reservada apenas àqueles que a passam.

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Gosto do mistério, da procura, da pesquisa, da montagem. Gosto do quebra-cabeças. É todo um jogo fora do jogo, um jogo com uma recompensa tangível.

Se o jogo fosse assim saído da caixa, estaria eu tão interessado? Duvido muito. Se assim fosse, estava agora a jogar Crysis 3.

E como me manter indiferente a esta maravilha que é jogar no PC? É maravilhoso observar  esta comunidade que se formou em redor do jogo, estas centenas de pessoas que dedicam horas do seu tempo livre a criar conteúdo para um jogo que não é seu. A criar ferramentas para resolver os seus problemas, para optimizar os seus recursos. Que escrevem guias e listas de códigos para o motor interno do jogo, com centenas de páginas de informação. Que o abriram e esventraram, como Leonardo Da Vinci fez na Renascença com o corpo humano, para melhor o entender.

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Tiro o chapéu à Bethesda. Eles não conseguiram fazer o melhor jogo, mas tiveram a visão de o reconhecer, e a coragem de dar aos jogadores – esse aglomerado com infinito tempo e talento – as ferramentas e informação para o melhorar constantemente.

Tal como hoje ainda se fazem modificações para Morrowind e Oblivion, também daqui a dez anos Skyrim estará bem vivo, constantemente apreciado nas mãos dos fãs, e actualizado para ser descoberto por novos jogadores. De quantos jogos de 2011 poderemos dizer o mesmo?

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