29 Ago 2018
PS4

Antevisão – The Elder Scrolls Online

Admiro a coragem da Bethesda. Sem querer entrar em muitos detalhes aborrecidos acerca da industria e de como a parte dos negócios de video jogos funcionam, digamos que a Bethesda é uma anomalia – é uma companhia grande que pertence a um privado.

Não há, como na maior partes das empresas da área, uma mesa de accionistas que, sem saberem nada sobre jogos, querem apenas valorizar as suas acções o mais possível, no mais curto espaço de tempo.

Não há gente burra a pressionar os criativos da companhia para irem atrás de modas, para acrescentar modos multijogador a jogos que não precisam delas, para transformar clássicos adorados em shooters, para imitar o sucesso de World of Warcraft com um modelo de pagamento mensal que até à data nenhum jogo senão o ópus da Blizzard conseguiu manter.

Significa, então, que quando a companhia decide investir uma quantidade ridícula de dinheiro e o nome da sua mais popular marca num MMORPG com mensalidade, é porque se passam duas coisas: as pessoas que percebem de video jogos e negócios da companhia acham que têm possibilidades reais de sucesso, e têm tomates de ferro.

Além disso, o acrónimo do novo jogo é TESO, o que lhe ganha logo alguns pontos de comédia em terras onde se fale o Português.

teso-preview-13_1_1

Regresso a Tamriel

Antes, tinha visitado localizações especificas de Tamriel, o mundo onde se passa a maior parte da saga The Elder Scrolls. Cada jogo da série passava-se na parte de Tamriel que lhe dava o nome. Agora, todo o mundo se abre à disposição. Desde Morrowind à Black Marsh, de Skyrim a Hammerfel, tudo está à disposição.

No tempo limitado que tive para experimentar o jogo, fiz talvez um erro: a personagem que criei foi um Dark Elf, membros do Ebonheart Pact, uma das três facções que lutam pelo domínio de Tamriel, e como tal, comecei… Em Skyrim.

Não abona muito a favor de um MMO, jogo que por sua natureza não pode ter gráficos muito elaborados, quando o meu principal ponto de comparação é um dos jogos para um jogador mais belos alguma vez criados – especialmente quando jogado num PC artilhado de mods de alta-resolução e efeitos ambientais. O choque foi grande – o Skyrim de TESO parecia-me estéril, vazio, pouco povoado, e pior que tudo: sem muito que explorar.

Tivesse começado com outra raça, talvez o impacto inicial tivesse sido diferente, mas convêm lembra: Skyrim foi de longe o mais popular da série, e muita gente deve vir parar a este jogo a partir de experiências que teve com Skyrim. O próprio TESO presta-se a comparações, a partir do momento em que uma grande parte dos ícones e interface são claramente evoluções dos de Skyrim.

Chegado depois de um par de horas a Morrowind, já a história é outra. O mundo exótico dos Dunmer enche mais os olhos, com as suas florestas de cogumelos e arquitectura fantasiosa. Mas mesmo assim, os gráficos fantástico-realistas de TESO não conseguem ter a definição de que necessitam para combater o apelo visual dos mundos mais coloridos, mais estilizados de Final Fantasy ou World of Warcraft, entre outros.

teso-preview-15_1_1

Um novo estilo de aventuras

Uma coisa me deixou encantado: ninguém me mandou ir recolher uma dúzia de peles de javali. A típica de manda de MMO, do estilo “apanha x disto” ou “mata y bichos deste tipo” nunca, nas duas tardes que joguei, me apareceu à frente.

As demandas eram sempre mais “realistas”: ir encontrar uma pessoa, descobrir um item escondido, explorar uma base inimiga, reunir um conjunto de chaves para abrir uma porta. O combate contra os inimigos foi quase sempre uma consequência do caminho que tinha que seguir, raramente um requisito.

E já agora, o combate está muito melhorado em relação tanto aos MMOs habituais como à série Elder Scrolls. O combate é em tempo real, como é tradicional na série, mas agora os feitiços e habilidades não tem que ser equipados numa das mãos, como é hábito. Acedem-se imediatamente através das teclas numéricas, o que torna o combate muito mais dinâmico. Adicionalmente, com bom ritmo é possível usar ataques ou bloqueios para interromper ataques especiais e feitiços de inimigos, atordoando-os, o que dá um bom incentivo para prestar atenção ao que se passa em vez de optar, como na maioria dos MMOs, por seguir uma sequência de botões optimizada.

Pena é mesmo que os inimigos sejam tão pouco agressivos. Por muitas vezes encontrei-me a passear por entre acampamentos inimigos, sem que ninguém se metesse comigo, a menos que eu me chegasse muito perto. Sentia-me mais um turista do que um aventureiro.

Optei por jogar quase sempre na perspectiva de primeira pessoa, pois, apesar de muito melhorada, a perspectiva de terceira pessoa continua a não ser o ponto forte da série. O que é uma pena, já que uma das coisas que mais gozo me dá num MMO é ver o crescimento das personagens ser reflectido nas suas armas e armaduras.

teso-preview-03_1_1

O caminho do herói

Por enquanto, não dá para julgar bem este aspecto, o das recompensas. Nas horas que joguei, encontrei muito pouco equipamento de jeito – tudo muito banal. Mas é normal, no inicio de um jogo destes.

Já gostei mais das subidas de nível. Desde cedo, deixaram-me escolher de um leque muito variado de habilidades, dentro da minha profissão escolhida. As habilidades eram realmente diferentes e influenciavam o estilo de jogo – por exemplo, um dos primeiros poderes que “comprei” foi uma corrente que puxa os meus inimigos na minha direcção. Mas tarde, tive a opção de a evoluir num de dois caminhos diferentes: ou torná-la mais comprida, ou fazê-la dar mais dano.

A escolha de uma opção eliminava a outra para sempre, e é isso que gosto de ver nestes jogos: a possibilidade de duas pessoas com a mesma profissão terem personagens distintas.

teso-preview-11_1_1

Fica um pouco, e escuta…

Menos estimulante é a história. Não é que eu me canse de ser, mais uma vez, o escolhido profetizado (no caso de um MMO, mais um de entre milhões de “escolhidos”, mas ao menos que o seja num jogo onde as personagens não pareçam estar a ser dobradas por rejeitados da escola de actuação. A sério, a qualidade das vozes varia imenso entre o decente e o abominável.

Compreendo que não seja fácil dar voz a milhões de linhas de diálogo num jogo com centenas de horas de conteúdo, mas então, dêem-me texto em vez de ofender os meus ouvidos, e guardem as vozes de luxo para as cenas realmente importantes.

Não que a qualidade do texto seja extraordinária. Parece que um entre cada três habitantes de Tamriel é um guia turístico, excitadíssimo por nos apresentar a história das ruínas locais, ou dissertar sobre a fauna, flora ou sistema politico-social.

Ao menos os livros continuam a ser bem escritos, e há um par de centenas para coleccionar!

teso-preview-02_1_1

Conclusão:

The Elder Scrolls Online desaponta em alguns aspectos, e são coisas que duvido que sejam remediadas até ao lançamento, mas uma coisa é certa: uma vez por outra, conseguia criar aquele momento mágico característico da série, em que o monitor e o rato e teclado desapareciam, e eu dava por mim a viajar através da tundra de Skyrim no meio de um nevão, ou por entre as terras vulcânicas de Morrowind.

Combinado com um sistema de combate agradável, e se a evolução das personagens a nível de equipamento se revelar tão interessante como a nível de habilidades, acredito que muita gente se consiga satisfazer com os gráficos funcionais e ignorar as vozes fracas, e tornar este num dos seus mundo de fantasia de eleição para jogar online.

A maior parte das pessoas diz que a Bethesda não tem como destronar World of Warcraft. Provavelmente é verdade, mas talvez não seja esta a sua intenção. Se conseguirem captivar uma boa percentagem dos fãs de The Elder Scrolls, talvez seja suficiente.

Eu, por mim, estou com vontade de voltar a Tamriel

The Elder Scrolls Online tem data de lançamento prevista para Abril, no PC, e Junho, nas consolas. A Bethesda providenciou ao autor um código beta para o testar, dando-lhe acesso ao jogo durante um fim-de-semana. As capturas de imagem foram feitas com os gráficos em Ultra, a 1080p.

Também te pode interessar