28 Ago 2018
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Jogos de Humor: A Piada de 10 Euros

Humor não é fácil. É um trabalho complicado, entreter uma plateia durante uma hora ou mais. A maioria das pessoas não acha piada às mesmas coisas. E a repetição mata a piada.

Imagine o leitor que comprava um par de bilhetes para um espectáculo de stand-up comedy, e que levava o namorado ou namorada, esposo ou esposa, à espera de uma noite de gargalhadas.

Mas, chegados ao local, o cómico fica no palco a contar sempre a mesma piada – certo, pode mudar as personagens, dar-lhes nomes diferentes, contá-la com vozes diferentes, mas acaba por sempre a mesma piada. A mesma piada repetida vezes sem conta ao longo da hora que dura o espectáculo.

Isto seria inadmissível, e não acontece. Não acontece porque qualquer um percebe que isto não tem interesse e é errado. Um cómico pode não ter jeito, ser principiante ou mau, mas nem mesmo os piores dos piores julgam poder encher todo um espectáculo com uma ou duas piadas recicladas.

Excepto, claro está, nos video jogos.

The Stanley Parable. Octodad. Surgeon Simulator. E mais recentemente, Goat Simulator. E outros tantos. Hoje, o jogo de comédia  faz sucesso. E é triste que assim seja, pois não é um sucesso merecido.

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Um daqueles casos em que ver vídeos e imagens na Internet é muito mais divertido do que jogar o jogo em si. O conceito e história por detrás do jogo são infinitamente mais interessantes e engraçados que o acto de o jogar.

O que estes jogos fazem é aquilo que para um cómico seria inadmissível fazer: repetir a mesma piada imensas vezes.

“A Piada” pode ser um conjunto de narrações engraçadas; comentário sucessivo acerca da parca liberdade de escolha que os jogos oferecem ao jogador; uma personagem principal ridícula; um modo de controlo tão estapafúrdio que é hilariante lutar contra os controlos só para tentar cumprir tarefas simples. Etecetra, etecetra.

Não há falta de ideias engraçadas entre estes jogos e muitos outros. Mas dentro deles, eles repetem-nas até à exaustão. A maior parte destes jogos teria piada como uma experiência de 5 minutos – depois fechariam-se as cortinas e adeus, partiríamos do mundo do jogo de animo leve, com um sorriso nos lábios.

Mas não, eles têm que ser produtos, têm que cobrar entre 10 a 15 euros, e portanto, têm que durar. Têm que reciclar a piada ao longo de uma, duas, três horas.

Porque ao contrário de um número de standup, em que uma piada pode requerer horas e horas de pensamento mas depois apenas algumas palavras para ser dita, um jogo carece de inúmeros recursos para ser construído, para se construírem as mecânicas que justificam e possibilitam A Única Piada. Fazer mais piadas, piadas diferentes, significaria quase criar todo um outro jogo.

E no entanto estes jogos têm sucesso. Têm sucesso porquê? Eu tenho uma teoria: é uma combinação do pseudo-intelectualismo que têm vindo a crescer ao longo dos últimos anos entre a comunidade de jogadores, e da necessidade que as redes sociais criaram de cada individuo fazer parte da “moda”.

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Um extra-terrestre a usar um chapéu de Papa, enquanto faz rebolar uma bola adesiva que destrói todos os sítios por onde passa. Cómico? Sem dúvida. Mas crucialmente, o acto de jogar traz prazer e desafio em igual medida.

Video jogos são uma forma de arte. Mas são uma arte adolescente, e portanto, envolta em todas as inseguranças da adolescência. Aqueles que lhe estão mais próximos anseiam e fazem de tudo para o provar – e qualquer tipo de jogo que fuja à percepção da sociedade (de que todos os jogos são sobre andar aos tiros em pessoas ou aos chutos numa bola) é elevado por estas pessoas acima do seu real valor, como um grito desesperado de “Vejam isto, isto é diferente, isto é Arte!”

Sim, é arte – mas nem sempre é boa arte, e é com essa qualificação que nos devemos importar. As manchas de tinta douradas que fiz quando tinha 5 anos sobre um pano de seda vermelha, lendo qualquer coisa vagamente semelhante a “Amo-te pai.” foram certamente muito apreciadas pelo meu pai, mas admito que não elevaram a pintura infantil a um novo nível de respeito entre as belas artes.

Finalmente, o mundo em que vivemos, em que a cada minuto vemos uma nova actualização de Facebook ou Twitter, leva-nos a querer estar sempre em cima do acontecimento, a querer estar entre os primeiros a recomendar aquilo que vai ser “a nova moda”, e isso leva-nos a ser menos criteriosos com o que recomendamos. Disparamos para todos os lados, e assim, conceitos simples e de pouco mérito como os Octodads e os Flappy Birds espalham-se pelas redes sociais como fogo por uma serra seca.

Dantes, era recomendado o que tinha qualidade. Hoje, é recomendado aquilo que é atraente, que dá uma imagem bonita ou 162 caracteres de texto cativantes. Nós mesmos transformamo-nos na imprensa sensacionalista.

E de volta ao humor nos jogos. É então, algo inalcançável? Estamos condenados a ver o humor nos jogos limitado à repetição de uma piada durante três horas, a pagar dez euros por ela, e a bater as palmas porque ninguém tem coragem de dizer que o rei vai nú?

Nem por isso. Um jogo de humor pode, pela razão supracitada, estar condenado a ser um produto fraco, uma curiosidade cara na melhor das hipóteses, pois o meio dos video jogos não é adequado ao humor. Não é o único.

Quantos albuns musicais de paródia são um sucesso? Eles existem, mas dificilmente poderemos dizer que musicos gozões como Weird Al ou Bloodhound Gang fazem boa música. Nem todas as formas de arte têm a mesma capacidade para tratar de vários temas, e isso não é vergonha nenhuma nem desvaloriza a forma de arte.

Mas os jogos, não podendo ter o humor como o seu centro, podem no entanto ser humoristicos. Os jogos têm a vantagem de poder ser uma montagem de todas as outras artes visuais, sonoras e literárias.

Um jogo pode não ser engraçado como jogo, em suma, mas pode ter nele escritos, diálogos, situações extremamente engraçadas.

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Recordada como uma das séries mais engraçadas de sempre, o humor, no entanto, sempre foi secundário à história de aventura e aos enigmas, em Monkey Island. É uma história acerca de um jovem optimista (e trapalhão) que sonha em tornar-se num pirata, e do seu crescimento – não simplesmente uma história de um pirata trapalhão, a fazer trapalhices.

Vejamos o caso da série Monkey Island – o cerne do jogo é a resolução de enigmas através de diálogo e combinação de objectos, mas as situações em que as personagens eram colocadas, e os diálogos entre as mesmas, faziam sempre o jogador rir-se como se estivesse a ver uma comédia no cinema ou  a ler um livro de humor.

Ou Katamari Damacy – o jogo em que se viaja por casas e cidades a rebolar uma bola adesiva a que, quanto mais coisas se colam, maior fica. A mecância de jogo em si não é cómica – é atropelar coisas mais pequenas que nós e evitar coisas maiores. Mas as proporções a que a bola pode crescer, até ao ponto em que podemos estar a enrolar edifícios inteiros e as pessoas ficam coladas à esfera gigante a espernear, lado a lado com baleias e elefantes – o ridículo aí é tão patente que se torna hilariante.

Estes jogos não são jogos de humor – não são jogos especificamente construídos para ter piada. Mas o humor, intencional ou não, está no seu DNA. Simplesmente não depende da mecânica do jogo, mas sim da componente literária ou visual, e assim pode-se alcançar uma muito maior variedade – piadas novas – sem a necessidade de se construir todo um jogo novo.

Onde é que isto nos deixa? É esta a minha recomendação ao leitor: seja exigente com o seu humor. Não se deixe deslumbrar pela piada repetida só porque é novidade.

Há poucos jogos que sabem fazer humor como deve de ser, mas eles existem – e se o leitor já os apreciou a todos, mais vale sair e ir ver um bom stand-up, do que alimentar produtos inferiores.

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