The Legend of Zelda sai da sua zona de conforto para nos entregar um título de peso.

Existe melhor forma de apresentar uma consola do que com The Legend of Zelda? Talvez, mas foi este título que a Nintendo escolheu para impulsionar as vendas da Switch e verdade seja dita, não podia estar mais contente.

Breath of the Wild começa com Link a acordar num ambiente que lhe é totalmente desconhecido, e mal saí da gruta, depara-se com um vasto mundo para explorar. Parece que estou a contar a história de Fallout 3 mas é mesmo The Legend of Zelda. A única indicação do que temos que fazer é-nos dada pela misteriosa voz que sai do artefacto que encontramos na gruta, a Sheikah Slate, uma espécie de tablet antigo que se vai revelar ser bastante útil. Ao longo da aventura vamo-nos apercebendo como funcionam as mecânicas e raramente existe alguém que nos diga passo-a-passo o que fazer. Mesmo na quest principal muitas vezes ficamos à mercê da nossa exploração e com sorte, encontramos alguém que nos saiba dar algumas indicações.

O mundo é vasto e à primeira vista pode parecer vazio, mas a verdade é que existe algo interessante por detrás até mesmo da mais insignificante pedra. As diferentes atividades obrigam-nos a manter sempre de olho aberto à procura de ingredientes, animais, armamento, etc… Dizem que se conquistam pessoas com a comida, neste caso conquistam vitórias. As comidas em Breath of the Wild são um dos pontos mais interessantes e úteis do jogo, visto que é desta forma que se recupera saúde e também aumenta resistências e atributos, como a velocidade, saúde máxima e Stamina. Precisam de ir a uma zona gelada mas não têm roupa quente? Basta preparar uma refeição picante e podem andar a passear pela neve durante alguns minutos. Parece chato, mas é bastante divertido. Perdi a conta do tempo que andei de volta de um tacho e uma fogueira a misturar alimentos para obter diferentes resultados, e ainda mais tempo perdi a trepar sítios difíceis para obter cogumelos ou a caçar javalis.

As enormes masmorras foram substituídas por dezenas de pequenos templos espalhados por Hyrule, onde cada um consiste num puzzle, um inimigo desafiante e em alguns dos casos chegar ao templo é o desafio e lá dentro apenas se encontra o brinde. A resolução dos puzzles vão desde a utilização de simples mecânicas de jogo, utilização inteligente das runas e até a perícia com o giroscópio da consola. Por cada templo completo somos presenteados com uma esfera. Estas esferas podem ser usadas para aumentar o número de corações ou aumentar a roda de stamina. Os templos após estarem completos servirão como pontos de viagens rápidas. Outro ponto de interesse a ter em conta são as torres. Por norma cada torre também oferece um desafio e para além de, tal como os templos, servirem como pontos de viagens rápidas, também nos revelam a área no mapa e nos dão uma vista geral sobre a mesma, tornando muito mais simples a tarefa de descobrir a localização de novos templos ou outros pontos de interesse.

Não me farto de gabar o quão divertida é a exploração neste jogo. Cada vez que decidia ir ao encontro de um ponto de interesse que tinha marcado no mapa, era uma aventura onde pelo caminho fazia sempre vários desvios para colecionar mantimentos, completar um templo ou simplesmente deslumbrar a paisagem. Os gráficos desempenham um excelente papel nesse aspecto, pois tudo é cheio de vida e cor. As condições climatéricas estão no ponto e não me lembro de ser tão divertido correr no meio de um temporal. Fiquei rendido ao design das diferentes raças e o jogo é ótimo a introduzir novos personagens. O trabalho de luz está fantástico: o reflexo da de luz na água, nas superfícies molhadas e até mesmo nas rochas quentes. Fartei-me de tirar screenshots enquanto planava de noite sobre os lagos.

Os diferentes biomas estão bem conseguidos, desde os verdes planaltos, os infindáveis desertos e até mesmo as zonas gélidas. As vilas têm vida e tudo o que se pode ver no horizonte é palpável. É impressionante não ter encontrado um único bug num jogo tão vasto e cheio de conteúdo. Existem ainda pormenores como as reações de Link à temperatura, todo o material equipado ser visível no personagem e até mesmo o facto de todos os ingredientes que iremos atirar para uma panela sejam visíveis nos seus braços. Mas não só são os pormenores visuais. Experimentem a andar no meio de uma tempestade de raios com armas de metal equipadas, ou armas de madeira em zonas de temperaturas altas, ou até mesmo tentar escalar algo durante uma chuvada. É impressionante que com mecânicas tão modernas, a Nintendo nos consegue entregar uma exploração que desperta o mesmo sentimento que tivemos ao pegar no The Legend of Zelda da NES pela primeira vez.

O som é outro ponto bastante forte. As conhecidas melodias da série estão presentes com novos arranjos musicais assim como novas peças sonoras. O som da natureza é bastante credível e ajuda bastante na imersão do jogo. A grande novidade em relação aos títulos anteriores é a inclusão de vozes. Apenas alguns personagens têm vozes e só se ouvem em cutscenes ou na introdução de alguns personagens importantes. Não sinto que a série precisasse disso mas foi uma boa adição, tirando a voz da Zelda que a meu ver não encaixa na personagem.

Algo que foi bastante simplificado foi o combate. Os movimentos que efetuamos são os básicos correr, atacar e saltar, e temos que aliar isso com as diferentes armas para obter diversos resultados. As armas corpo-a-corpo são muito variadas e podemos também utilizar escudos e arcos. O “twist” aqui é que praticamente todas as armas e escudos podem ser destruídos, o que nos leva a ter um certo cuidado ao atacar monstros. Os “poderes” ficam a cargo da Sheikah Slate que não serve só para mostrar o mapa e tirar fotografias. Este poderoso objeto vem equipado com runas que nos permitem parar o tempo de objetos, criar pilares de gelo na água, puxar objetos metálicos e utilizar Amiibos.

As fotografias não servem só para contemplar paisagens, mas também para catalogar vários elementos do jogo. Criaturas, inimigos, armas, ingredientes, todos estes elementos podem sem catalogados num compendium que funciona como uma caderneta de cromos. Para além de despertar o bichinho do colecionismo, esta função mais tarde no jogo servirá para que a Sheikah Slate consiga nos indicar onde encontrar estes elementos.

As pequenas figuras que a Nintendo nos fez investir não foram esquecidas e desempenham uma função em Breath of the Wild: darem-nos mantimentos. Os amiibos relacionados com The legend of Zelda são os que nos dão mais presentes como armas, rupees, roupa clássica e até uma certa égua lendária.

A história do jogo não é muito comprida, mas existem bastantes missões secundárias que nos vão deixam ocupados durante algum tempo. O enredo é o mesmo de sempre: salvar a princesa e o mundo da escuridão de Ganondorf, mas o setting tem um twist bastante interessante. Porém existem momentos bastante épicos que ilustram na perfeição o que consiste a demanda de Link. Não me interpretem mal quando digo que a história não é muito grande, pois a verdadeira história é a jornada do jogador pela vasta área de Hyrule.

Uma das queixas do público em relação à Nintendo Switch no lançamento foi que apenas tinha Breath of the Wild como título de peso, mas não podia ter corrido da melhor forma. É uma aventura que dura dezenas de horas e entra diretamente para o meu top 5 jogos de sempre. Cada detalhe do jogo é mágico e mesmo após 20 horas de jogo e já ter descoberto o mapa na sua totalidade, ainda consegui encontrar algo que me fizesse ficar deslumbrado com o mundo que nos é apresentado neste pequeno cartucho. Não é um jogo perfeito mas não consegui encontrar nada negativo que fosse relevante de mencionar. The Legend of Zelda: Breath of the Wild é uma das aventuras mais envolventes dos últimos anos e uma das melhores formas de ilustrar o conceito de “mundo aberto”.