27 Nov 2020
PS4

Análise – Watch_Dogs

Watch_Dogs é um jogo acerca de explorar erros e bugs num sistema informático que controla uma cidade, deixando que o jogador se torne num pequeno deus digital.

Aos alcance dos seus dedos estão câmaras, portões, semáforos, comboios, elevadores, alarmes e muitas mais coisas que impedem, atrapalham ou explodem com os adversários – ou não. Um dos maiores triunfos do jogo é que, ao contrário da maioria dos jogos da Ubisoft, nos deixa realmente viver a aventura num mundo com muito pouca coisa pré-definida.

Um bom exemplo é uma das missões primárias, em que seguimos um mafioso de carro. É um tipo de missão comum neste jogo, mesmo neste género, mas habitualmente a perseguição teria um principio, um meio e um fim definidos, e o papel do jogador seria aguentar-se próximo da vitima durante o caminho que os produtores previram.

Aqui não.

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Há quase sempre muitas ferramentas a usar e caminhos pelos quais podemos chegar onde queremos. O jogo obriga-nos a matar muitas vezes, mas se assim o quisermos, podemos reduzir o numero de mortes para valores muito abaixo do típico jogo de acção.

Em Watch_Dogs, se o jogador tiver habilidade e capacidade de improvisação (e um pouco de sorte), o mafioso pode estatelar os dentes no asfalto em 5 minutos, ou podemos persegui-lo por metade da cidade sem sucesso. Os criadores só determinaram o ponto de partida e a condição de vitória, e o resto é por nossa conta. Os próprios inimigos em fuga, seja a pé ou de carro, apesar de terem uma rota inicial pré-definida, mostram capacidade de improvisar se nós a bloquearmos ou os retirarmos muito do caminho.

É um dinamismo que se reafirma ao longo do resto do jogo. Existem ocasiões em que somos obrigados a resolver um problema a tiro, mas são raras, e há quase sempre oportunidade de “fazer batota” e usar os recursos digitais para fazer grande parte do trabalho por nós.

E o jogo está no seu melhor quando nos mete em situações tipo Metal Gear, em que é necessário infiltrar um local patrulhado por guardas, e usamos o máximo das habilidades de hacking para pular de câmera em câmera, a incapacitar inimigos de uma forma ou de outra, e a fazer reconhecimento para o nosso avanço –  avanço esse que podemos vir a descobrir que não é necessário. Algumas missões podem ser resolvidas puramente por via digital.

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Os menus de missões, habilidades e colecionáveis, naturalmente, estão na interface do telemóvel.

O grande constrangimento é a história. Há um par de personagens interessantes no jogo todo, e o protagonista Aiden não é uma delas. O momento em que ele revela mais personalidade é quando compra uma bebida num café, e nem olha nos olhos do empregado, distraído que está pelo telemóvel. Aiden é o típico homem da era digital moderna – desinteressado e desinteressante. A menos que façamos hack de um painel publicitário, ocasião na qual vemos surgir um de vários memes engraçados – um traço de humor que a personagem não demonstra possuir em mais nenhuma ocasião.

Nem as suas relações são credíveis – a menos que haja uma história de incesto por revelar, a relação com a sua irmã e sobrinhos é estranha a todos os níveis, com o tipo de linguagem verbal e corporal normalmente reservada para conjugues e filhos.

A isto juntamos o facto da personagem ser completamente incongruente – por um lado é Batman, protegendo os cidadãos de crimes, com bónus se eliminar os criminosos de forma não letal. Por outro lado, durante um tiroteio ou perseguição de caro, muitos mais inocentes são mortos ou aleijados do que são salvos durante as missões para aí direcionadas. A maioria dos jogos de mundo aberto concilia isto: os protagonistas são heróis, ou criminosos, ou vilões. Aiden quer ser tudo e não é nada. É só um sociopata.

Este aspecto não altera uma coisa: este é provavelmente o melhor jogo de mundo aberto da Ubisoft, com muito mais liberdade e flexibilidade do que a companhia nos tinha dado na série Assassin’s Creed. Continuo a achar que a Ubisoft mete tralha demais nos mundos deles, não eram precisos tantos mini-jogos e diversões e devia-se ter focado um pouco mais em enriquecer os aspectos mais importantes. Mas há sempre algo para fazer e mais importante: formas interessantes de o fazer. Foi um jogo que me deixou entretido do princípio ao fim. Para além de uma escusada e francamente estúpida luta de “boss” a meio do jogo, não dá tiros no pé.

Diverti-me bastante com Watch_Dogs. A sua mecânica de hacking é muito divertida, e tudo o resto – condução, tiros – é competente. Quando conjugamos a primeira com as outras duas – explodir uma válvula de pressão para distrair guardas durante um tiroteio; bloquear uma parte da estrada para o carro que nos persegue se estatelar; impedir um guarda alerta de chamar reforços bloqueando-lhe o rádio – esquecemo-nos dos seus defeitos, e resta uma experiência de qualidade.

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Muito do jogo foca-se nas atividades de justiceiro de Aiden, impedindo crimes. Claro que a caminho do crime, Aiden só atropelou fatalmente duas pessoas, e roubou cerca de 10.000$ hackando contas bancárias. Aparentemente só é maldade quando se rouba a carteira.

Irónico é que um jogo baseado em bugs de um sistema operativo seja também ele tão fatalmente afectado por bugs. A mais ou menos um terço do caminho, fui vítima do bug de “loading” que faz encravar o jogo num ecrã de carregamento, e que está a afectar centenas de jogadores de todas as versões (daí o enorme atraso nesta análise). Como o jogo não guarda estados separados, não há possibilidade de continuar. Tive a sorte de estar a jogar no PC, onde o serviço uPlay faz backups autómáticos dos saves para a rede, e tive ainda mais sorte por esses não estarem igualmente corrompidos. Para além disso – e menos grave, mas chato – há missões onde os NPCs vitais encravam e é preciso reiniciar o jogo e perder progresso para as terminar.

Alguns sites diriam que isto é razão para dar um baixa nota ao jogo, um 0 ou um 1, pois pode tornar-se, efetivamente, injogável – especialmente para as versões consola que não podem contar com as soluções dos fãs e têm que esperar pelas lentas respostas da Ubisoft.

Eu não concordo com isto. Eu tive azar, tal como muitos outros, mas é algo que, por amargo que seja, é preciso aceitar – as coisas avariam-se. Tenho a opção, se assim ententer, de devolver o jogo à loja e explicar a situação, na esperança de reaver o dinheiro, mas isto não torna o jogo num jogo pior, e ele não merece ser penalizado por uma questão técnica que só afecta alguns.

Normalmente não falo de gráficos nas análises, pois é para isso que existem vídeos e imagens na net. Neste jogo, a controvérsia é que o produto final não é tão belo como o que foi mostrado na apresentação; e mais, que na versão PC em particular, os conteúdos gráficos existem e simplesmente não estão activados.

Ambas as coisas são verdade. Em relação à primera: Watch_Dogs é um jogo belíssimo na mesma, por vezes roça o foto-realista. Num PC bem equipado, pode não corresponder ao que foi mostrado, mas vai maravilhar ocasionalmente. Em relação à segunda: joguei várias horas com as opções modificadas por patches amadores. Umas simplesmente não gostei, como por exemplo o desfocar excessivo dos fundos. Outras causavam alguns problemas técnicos e percebo porque foram removidas. Não me parece que haja aqui uma grande conspiração – foram coisas cortadas porque não funcionavam a 100%, e o jogo, francamente, já tem bugs que chegue. A verdade é que quem instalar o jogo e não tocar nas configurações vai ter uma boa experiência na mesma, e é isso o mais importante.

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Este é o tipo de qualidade visual que se consegue alcançar com mods não-oficiais e um computador do preço de uma pequena casa. O jogo sem extras, francamente, não fica muito atrás.

No final de contas, Watch_Dogs é um jogo de mundo aberto a que eu regressei várias vezes depois de acabar a campanha, coisa que raramente aconteceu com outros jogos. É bonito, e variado, mas o mais importante: é mesmo aberto, no sentido em que, na maior parte dos casos, nos deixa resolver as coisas à nossa maneira.

Pontos Positivos:

+ Mecânica de hacking

+ Gráficos

+ Variedade e flexibilidade

Pontos Negativos:

– Bugs que impedem de jogar

– Personagens

Watch_Dogs está disponível para PS3, PS4, PC, Xbox 360, Xbox One, e, brevemente, para Wii U. A versão analisada foi a versão PC, a correr a 1080p num computador que superava as especificações recomendadas. Foi comprado pelo autor da análise.

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