Estão preparados para algo épico?

Transformers é uma série animada que já conta com mais de trinta anos de existência, mas o seu lugar no coração dos fãs é intemporal.

No que toca a Transformers, não sou menino para desviar o olho a uma oportunidade de ter uma experiência no universo da série. Para bom entendedor, isto tem-me trazido algumas desilusões constantes. Falo obviamente dos filmes do Michael Bay. O primeiro começou bem, para a série, o segundo quebrou um pouco o meu entusiasmo, o terceiro atropelou-o e o quarto ainda lhe cuspiu em cima. Mas quando soube que ainda vai haver mais filmes no grande ecrã, a consciência desligou-se e o entusiasmo reapareceu.

Enfim, sou assim…

Relativamente aos jogos baseados nos filmes, o meu entusiasmo tem sido constantemente espancado por budget titles ou adaptações dos filmes, com gameplay genérica e pouco entusiasmante. No entanto, no meio de tanto carvão, houve dois diamantes que se destacaram: Transformers: War for Cybertron e Transformers: Fall of Cybertron, feitos pela High Moon Studios, que a partir daí viria a definir os jogos da série. Transformers: Dark of the Moon e Transformers: Rise of the Dark Spark usaram a fórmula da série Cybertron, mas apenas vieram a provar que jogos baseados em filmes têm uma taxa de sucesso muito limitada.

E no meio disto tudo? Divirto-me com estes jogos da mesma maneira que um porco se diverte na sua pocilga… Tenho noção das coisas, mas tenho um sorriso na cara.

Os últimos títulos têm vindo a definir um género específico associado à saga. É quase impossível imaginar um jogo de Transformers sem ser um shooter na terceira pessoa. Mas, é aí que entra a Platinum Games.

Analise-TransformersDev-Gif

Conhecidos pelos grandes títulos de ação hack n’ slash que lançaram, como Bayonetta, Metal Gear Rising: Revengeance e Madworld, seria de esperar que iriam levar a série de jogos de Transformers para outros caminhos.

Transformers Devastation é um novo olhar sobre a série de jogos, e é o primeiro jogo que volta a usar os Transformers de primeira geração desde o título de 2003, Transformers, exclusivo da PlayStation 2.

Neste jogo, passamos do padrão de shooter em terceira pessoa para ação hack n’ slash, alterando por completo qualquer hábito que tinhamos de outros títulos. As mecânicas são extremamente fáceis de entender, mas difíceis de dominar, tal como na série Bayonetta. Temos o ataque leve, ataque pesado e a esquiva como opção primárias. Infelizmente não contamos como uma vasta variedade de combos, mas são minimamente suficientes para criar um combate sólido. O modo de esquiva é praticamente uma cópia daquele que temos nos jogos de Bayonetta, em que se o jogador se esquivar mesmo antes de um ataque inimigo, entramos num modo de camera lenta, permitindo prolongar ou terminar os nossos combos.

Analise-TransformersDev-Img4

Esquecendo o básico, temos várias mecânicas que dão um gosto único a Transformers Devastation. Neste caso, é apenas único porque só é possível com Transformers. Falo dos finishers, que se executarem sempre que o jogador termina um combo. Em Bayonetta tínhamos as punições, aqui o nosso Autobot transforma-se em modo veículo e executa um ataque final nos inimigos.

Como podem ver dá para fazer muitas comparações aos outros jogos da Platinum Games. É uma fórmula iconica, tal como a da Nintendo tem nos seus jogos de plataformas. Para quem conhece, sabe que terá uma jogabilidade de alto nível, para quem não conhece, pode vir a ser uma experiência muito agradável.

Falando nas personagens, temos direito a jogar com cinco Autobots: Optimus Prime, Bumblebee, Wheeljack, Sideswide e Grimlock. Cada uma das personagens está representada fielmente à série animada dos anos ’80. Podemos distinguir cada um deles pelas suas particularidades únicas, como por exemplo, o Optimus Prime é a personagem mais equilibrada, enquanto que o Bumblebee tem menos vida, mas compensa na velocidade. À medida que vamos avançando na campanha, vamos desbloqueando as personagens, no entanto podem passar o jogo todo sempre com a mesma, ou caso sejam realmente fanáticos, passam o jogo cinco vezes, rodando entre personagens.

Pessoalmente, sinto que ficaram em falta muitas personagens iconicas, como é o caso do Hound, Ironhide e Jetfire. A nível de funcionalidade num jogo como o Transformers Devastation, o Ironhide e Jetfire trariam uma jogabilidade diferente à dos outros cinco, dando aos jogadores mais umas oportunidades de experienciar o jogo de uma maneira semi-diferente.

Analise-TransformersDev-Img2

Contudo dá para perceber, em alguns pontos, o porquê de a Platinum Games se limitar a cinco. Em primeiro lugar, Transformers Devastation é um budget title, o que muito provavelmente não colocaria no orçamento mais personagens. Talvez apenas em DLC. Em segundo lugar, abusar na quantidade de personagens poderia tirar o significado e a importância de cada uma delas em geral. Por um lado fico triste para não ter mais opções, mas por outro compreendo a possibilidade desta situação.

Do lado dos Decepticons, obviamente que temos o Megatron, mas nota-se uma especial atenção à fação. Iremos cruzar-nos com os generais de Megatron, Shockwave e Soundwave, cada um com a sua própria batalha, os Seekers: Starscream, Thundercracker e Skywarp, vários dos Insecticons e, como está anunciado na capa e nos trailers, os combiners Devastator e Menasor. Cada Decepticon representado no jogo tem direito à sua própria Boss Battle, com poderes únicos e distintos de todos os outros, com especial destaque para as batalhas com os combiners, que tomam proporções enormes em comparação aos restantes.

Analise-TransformersDev-Img3

Para juntar mais um toque de nostalgia neste caldo, muitos dos atores de voz originais estão de volta. O Peter Cullen é um dado adquirido, visto que a sua voz emblemática tem sido único para caracterizar o Optimus Prime desde os anos 80, contudo, temos o regresso de Dan Gilvezan (Bumblebee), Gregg Berger (Grimlock), Michael Bell (Sideswide) e Frank Welker (Megatron) que deram as vozes às respetivas personagens na série original dos anos ’80.

Para além dos voice actors, contamos também muitos dos sons originais da série, desde o barulho das armas e o som das personagens a transformar.

Passando para a campanha, infelizmente não é uma obra épica que será mencionada daqui a uns anos como um exemplo na indústria, mas ainda assim consegue ganhar algum destaque devido aos clichés que são equiparáveis aos da série animada.

A premissa leva-nos a acompanhar os Autobots que, mais uma vez, se encontram a impedir que o Megatron transforme o planeta terra no seu paraíso Cybertroniano. Ao estilo de Bayonetta e Vanquish, o jogo está dividido por missões, que por sua vez se dividem em seguementos. Entre seguementos temos pequenos elementos de plataformas e puzzles, mas nada muito complexo, pois são apenas a ligação entre encontros com inimigos.

Relativamente ao desenrolar da campanha, que fique ao vosso critério se ficou uma porta aberta para uma sequela ou não. Pessoalmente não acho difícil arranjarem mais uma maneira do Megatron arranjar sarilhos, e o fim do Devastation na fecha por completo as portas a isso. Possívelmente o facto de ter sido um low budget title, terá sido para testar o mercado e avaliar a sua recepção.

Analise-TransformersDev-Img5

Após completarem o modo história, vão descobrir que ainda têm dois modos de dificuldade adicionais para desbloquear, dando um total de cinco dificuldades. Se forem complecionistas ao ponto de querer tudo no máximo, terão muitas horas para praticar e tentar dominar o jogo. A vossa performance é avaliada com base na técnica, tempo e sobrevivência, variando entre o rank E (acho que para ter um F é preciso ser-se muito mau ou então não existe) e o rank S.

Dominar todos os níveis em rank S e em todas as dificuldades aumentará a longevidade do jogo para os que procuram um desafio e ao mesmo tempo gostam de ter um pouco de estória à mistura, mas se isso não for a vossa praia, ainda têm cinquenta desafios para dominar.

Os desafios são desbloqueados na campanha, com base nos colecionaveis que apanham e nas missões adicionais que completam. Cada um deles pode ser completado nas várias dificuldades apresentadas no jogo, podendo ser uma excelente base de Exp e items.

Exp e items?

Sim, Transformers Devastation apresenta alguns elementos de RPG, como é o caso dos pontos de experiência e os drops. Embora cada personagem tenha um estilo de luta diferente e único, cada uma delas pode evoluir vários valores, como por exemplo força, resistência, velocidade, entre muitos outros.

Analise-TransformersDev-Img6

Os drops, ou loot, são armas que caiem dos inimigos que derrotamos, variando na sua raridade e habilidades. As armas mais raras, logicamente, são as melhores e costumam ter slots adicionais para habilidades. Por norma, não costumam ter as slots todas preenchidas, de modo a que o jogador possa “sacrificar” armas menos boas para melhorar a sua favorita. O ponto positivo é que são de livre acesso entre os cinco autobots, podendo criar a “ultimate weapon” e usá-la com todos (tirando algumas que não são compatíveis com certo tipo de personagens).

Em suma, contamos com um bubget title da Platinum Games, possivelmente para testar a recepção de um jogo de Transformers de primeira geração. Não é um jogo que apele a um publico geral, mas certamente o consegue se as pessoas tiverem noção que estão a pegar num produto que apresenta uma jogabilidade aperfeiçoada, ao estilo do estúdio que o fez. Mesmo com uma campanha simples e sem grande desenvolvimento, é um jogo que vos fará render o dinheiro investido nele, seja pelas horas investidas a subir as personagens para o nível máximo, a completar a campanha toda em rank S ou dominar os cinquenta desafios que são apresentados.

Se tiver de o avaliar para fãs de Transformers, diria que a nota seria facilmente um 9 em 10, devido ao elevado grau de nostalgia que o jogo proporcionaria aos mesmos. Mas num ponto de vista mais generalista, tendo em conta que é um budget title, e de um ponto de vista para o público em geral, o jogo tem o seu mérito para receber um 8 em 10.

Se forem fãs de Transformers, este jogo poderá ser aquilo que pedem há imensos anos.