20 Out 2020
PC e Mac

Análise – The Song of Saya

Como se analisa um jogo que não é bem um jogo? Com a exploração de novas fronteiras no entretenimento digital, há uma corrente que se foca apenas em contar histórias com um bom ambiente multimédia, permitindo um mínimo de interatividade. É o caso de The Stanley Parable ou Dear Esther, ambos jogos em que pouco mais se fazia do que andar por um cenário e ouvir um narrador, do que explorar um mundo minimamente interativo. Não gostei muito desses jogos, precisamente porque um jogo sem interação me parece uma coisa aberrante. Sou capaz de ter que rever a minha posição.

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Isto é, basicamente, o que se faz neste “jogo”. Ler.

The Song of Saya tem precisamente duas interações ao longo das 4 a 6 horas que dura. São duas escolhas em momentos importantes da história, e uma delas leva o jogo a um final precoce (mas satisfatório). Fora isso, a única interacção que o jogador pode ter é fazer o texto avançar mais depressa. The Song of Saya tem mais em comum com um livro ilustrado do que com um jogo tradicional. É uma excelente história curta, e se não aproveita todo o potencial do meio interativo, aproveita muito bem o potencial multimédia. A história segue um estudante que, depois de um acidente, tem profundos problemas neurológicos. A sensação de seguir esta história é próxima daquela que sentimos ao jogar os melhores Silent Hill – dúvida, incerteza e insegurança são companheiros constantes, e nos melhores momentos, alguma paranóia.

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É mais ou menos este o nível de entranhas que podem esperar ver com regularidade no jogo.

Sendo o jogo todo história, não vou ser muito descritivo, pois cada palavra de descrição diminuiria o impacto da obra. Fico-me pelo seguinte: não é um jogo para pessoas de estômago fraco. Acontecem muitas coisas más, feias, e violentas, tanto graficamente como textualmente. O som (e distorção sonora) é particularmente importante e ler história com um bom sistema de som ou auscultadores, às escuras, chega a dar alguns arrepios. Fruto da cultura japonesa que permeia toda a obra, e ponto mais fraco do jogo, são as cenas de pornografia digital que aparecem aqui e acolá. Não é nada excessivo – mas são muito gráficas – acontecendo apenas umas três ou quatro vezes ao longo da obra, mas há sempre uma sensação de que é muito forçado e quebra o ritmo e ambiente da história de mistério e terror que se construiu. Nada contra jogos que explorem a sexualidade, ou mesmo jogos que pretendam ser pura pornografia jogável, mas aqui sinto que estas cenas retiraram impacto à história em vez de acrescentar.

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O que se passa aqui é muito, muito mais sinistro do que a imagem deixa transparecer. Para uma história tão violentamente gráfica, o verdadeiro terror está no texto.

No final de contas, como devo julgar The Song of Saya? Pelos padrões tradicionais daquilo que considero um video jogo, a obra é quase nula. No entanto, não posso negar que a história e a sua apresentação me deixaram colado ao ecrã durante um dia inteiro. Se julgar Song of Saya  como sendo aquilo que se propõe – uma novela visual com pontos de interação – então o resultado final é realmente satisfatório. No final de contas, tento ser consistente: tenho sido muito duro com os “jogos” pouco interativos dos últimos anos. Agora percebo que o tenho sido não só porque não oferecem interação, mas sim porque não me oferecem nada que justifique sacrificar a interação. As suas histórias não me envolveram. A história de The Song of Saya envolveu. Por isso, destaca-se, e merece a atenção do jogador que tenha ficado curioso ao ler esta análise.   Pontos Fortes: + Bela arte + Excelente trabalho sonoro + Boa escrita   Pontos Fracos: – Quase sem interação – Cenas de sexo desnecessárias que quebram o ambiente narrativo   The Song of Saya está disponível para PC, mas nunca foi lançado no território Europeu. Pode ser adquirido, tanto em formato físico como digital, através do site da JAST USA.

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