16 Ago 2018
PC e Mac

Análise – HearthStone: Heroes of Warcraft

Há coisas que gostamos de fazer, mas que temos que parar. Por razões pessoais ou monetárias,  por falta de tempo ou prioridades diferentes. Nem sempre podemos fazer tudo aquilo que gostamos. À medida que avançamos na nossa vida, é preciso deixar algumas coisas para trás.

Assim foi com Magic: The Gathering. Comecei a jogar o afamado jogo de cartas em 1996, e foi uma das minhas grandes paixões. Sempre que saía uma nova expansão de cartas, juntava todo o dinheiro que conseguia e comprava uns boosters.

Cheguei a ter umas quatro “colecções” completas. Fazia baralhos e mais baralhos para jogar contra amigos, para praticar, e depois levava os que funcionavam melhor para torneios locais e nacionais.

Isto era antes da grande disseminação na Internet, e como tal não havia o recurso estratégico que há hoje – era mesmo preciso criar os nossos próprios baralhos, e se víssemos um baralho campeão para copiar, era só um par de meses depois do facto, numa revista da especialidade. Magic era, nessa altura, tanto um jogo de invenção como de estratégia.

Mas chegou a altura da faculdade, e o dinheiro começou a escassear. Pior que isso, o tempo começou a escassear – era mais difícil arranjar tempo para ir ao clube, para jogar com os amigos. Surgiam outros amigos, mas poucos reconheciam o que era Magic. Mudaram-se os tempos, e as cartas foram esquecidas, como brinquedos velhos.

E os jogos dos últimos anos? Os jogos Magic digitais, disponíveis na Xbox Live e Steam? Por alguma razão, sempre me intimidaram. Fosse o facto de terem surgido tantas cartas novas desde que deixei de jogar, fosse o facto de não darem a liberdade total para  construir novos baralhos, fosse até mesmo o facto de serem pensados para se jogar online contra outras pessoas, algo que nunca me atraíu… Houve sempre algo que me impediu de os experimentar.

E eis que surgiu HearthStone.

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Subir até nível 10 contra o computador dá-nos acesso às cartas básicas de cada personagem, mas rapidamente se constrói uma colecção respeitável com que elaborar os próprios baralhos.

A Blizzard agarrou nos princípios básicos de Magic ( dois jogadores frente-a-frente jogam cartas usando recursos finitos mas renováveis, para se atacarem com feitiços ou através de criaturas que colocam no tabuleiro, até a vida de um chegar a 0 ) e reduziu-os aos componentes básicos, deixando a complexidade surgir através da interação entre as cartas e os poderes próprios do avatar de cada jogador – tudo inspirado nas criaturas, personagens e poderes do seu mais conhecido e bem-sucedido jogo, World of Warcraft.

Aquilo que a Blizzard fez melhor do que qualquer outro no género é que removeu todas as barreiras. Tudo o que neste género de jogos de cartas habitualmente intimida os jogadores, desapareceu.

Preço? O jogo é grátis, e é possível jogar centenas de horas sem gastar um tostão.

Complexidade? Para além dos princípios básicos serem simples, o jogo arranca com um excelente tutorial contra o computador, em que se ganham cartas pouco a pouco. O começo é extremamente suave e qualquer jogador tem tempo para compreender os elementos fundamentais do jogo, e se ir familiarizando com as cartas básicas e forma de jogo de cada personagem.

E jogar online contra outros, algo que normalmente não gosto? Neste jogo, é fundamental, pois é a única forma de ganhar as recompensas que permitem continuar a comprar cartas sem pagar, e assim fazer baralhos cada vez melhores, ou pelo menos, diferentes.

Mas é um ambiente competitivo tão confortável este que a Blizzard cria! Não há chat, excepto entre amigos. Entre desconhecidos,  os jogadores só podem comunicar através de meia dúzia de expressões pré-determinadas. E o sistema de emparelhamento de jogadores é fantástico – talvez por haver tanta gente a jogar – e raramente senti que me tivesse emparelhado com alguém muito acima do meu nível de jogo.

A verdade é que depois de uma dose inicial de derrotas (ou vitórias) a maior parte dos jogadores vai-se ver quase sempre a defrontar gente do seu nível, e assim, a ter um bom equilíbrio entre derrotas e vitórias.

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Os efeitos visuais de abrir um booster ou pacote de cartas são sempre uma delícia!

E HearthStone é extremamente generoso. Ao contrário de muitos jogos free-to-play, que nos colocam barreiras ao tempo de jogo, HearthStone recomensa o jogador por jogar muito. Todos os dias há uma missão para cumprir (por exemplo, ganhar 5 jogos com a personagem Shaman, ou jogar 40 feitiços) que uma vez concluída, permeia o jogador com ouro. E cada três vitórias também dão um pouco de ouro.

É genial a estratégia da Blizzard. Eles sabem que uma pequena percentagem de jogadores vai amar o jogo e vai ser impaciente e investir, comprando pacotes de cartas com dinheiro real em vez de acumular ouro no jogo. Mas também sabem que estas pessoas só vão investir no jogo se houver muita gente a jogar, pois se isso não acontecer, depressa o jogo se torna um combate entre meninos ricos com as melhores cartas.

Então, tornando tão fácil ganhar ouro para comprar pacotes de cartas, a Blizzard está a incentivar os jogadores que não pagam a jogar mais, e assim garantindo que o jogo nunca “seca” e que aqueles que pagam têm sempre competição nova com que se entreter. É um modelo criado a pensar naquilo que é melhor para o jogo e os jogadores, e o dinheiro vem em consequência da quantidade enorme de gente a jogar.

São mestres de desenhar jogos, realmente, estes senhores. Não é só o modelo que é bem pensado. As próprias cartas e mecânicas que lhes estão associadas estão tão bem feitas, tão interessantes, com potencial tão grande de interagir entre si, que dão azo a uma variedade enorme de estilos de jogo.

É palpável a evolução do jogador ao jogar HearthStone – inicialmente, está a aprender as suas cartas básicas. Depois, começa a encontrar interações entre elas, combinações de cartas que joguem particularmente bem em conjunto. A seguir, começa a compreender e economia do tabuleiro – que cartas vale a pena despender para destruir outras cartas, o valor relativo das cartas entre si. E finalmente, começa a conhecer também o tipo de baralhos contra os quais está a jogar, a antever as suas jogadas e a tentar prevenir-se contra elas.

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Guardar as cartas certas para o momento certo pode levar a reviravoltas épicas nos combates.

Não é que não hajam problemas. Num jogo desta natureza há sempre afinações a fazer, algumas cartas que são um pouco mais poderosas, e algumas combinações que predominam no patamar competitivo. São coisas que acredito que a equipa vá resolvendo e afinando ao longo da vida do jogo, e não é invulgar isto acontecer num jogo de cartas – as próprias cartas Magic, a nível competitivo, contam com erratas, e uma vez por outra há uma que é banida de torneios. Para o jogador casual, no entanto, isto é praticamente irrelevante.

Também palpáveis são as cartas. São construídas com tal atenção ao detalhe que quase parecem prontas a saltar para fora do ecrã! O som que fazem ao ser jogadas, os efeitos que as acompanham, o detalhe das suas bordas, a arte de alta definição que as ilustra… Dá um gosto visceral mexer nelas, apreciá-las. São luxuosas como cartas de jogo físicas nunca poderiam ser. Abrir um pacote de cartas – só por si uma explosão de fogo-de-artifício mágico – e virar uma a uma as cartas que calharam, sempre na expectativa de vir aí uma carta rara ou até mesmo lendária… HearthStone captura completamente o aspecto físico dos jogos de cartas colecionáveis, e parte do espírito dos clássicos da Blizzard, World of Warcraft e Diablo, na medida em que a vontade de ter mais recompensas nos leva a querer jogar mais e mais.

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A Arena exige uma boa capacidade de improviso e construção de baralhos, e claro, uma boa dose de sorte. As recompensas podem ser muito boas.

Mais de mil palavras e nem falei no modo Arena, o modo em que se paga (dinheiro a sério ou fingido) para se construir um baralho a partir de cartas aleatórias, e levá-lo em competição contra outros. Três derrotas e é-se eliminado, mas ganha-se sempre um pacote de cartas, e com uma boa dose de vitórias, até mais. Uma boa sequência de arenas pode trazer muitas recompensas numa fracção do tempo que se demora a obtê-las nos outros modos – mas o risco também é grande.

Mas mais do que uma forma de ganhar cartas, Arena é engraçado porque escapa à tirania do baralho pré-construído, é uma hipótese de, não tendo as cartas ideais para emparelhar umas com as outras, jogar e ver jogar cartas engraçadas mas menos utilizadas, ou até cartas que não fariam sentido num contexto de uma baralho estrategicamente equilibrado, mas que num baralho de cartas aleatórias são muito potentes.

Como se julga a qualidade de um jogo? HearthStone, apesar de baseado num universo rico, não tem uma história. É bonito, muito bonito, mas não tem gráficos de topo. Nem inventa nada de novo – simplesmente reinventa um género de jogo antigo num contexto digital.

Mas é bom. É tão bom. Não consigo parar de o jogar, mesmo com titãs como Dark Souls II, Diablo III, Elder Scrolls Online,Final Fantasy XIV e muitos outros à minha espera. Este arrisca-se seriamente a ser, já em Maio, o meu jogo de 2014.

A Blizzard entrou neste ano com uma qualidade inigualável, a superar todas as expectativas, e até tremo só de pensar como será se eles conseguirem trazer este tipo de qualidade com Warlords of Draenor e Heroes of the Storm.

Pontos Positivos:

+ Deliciosos mexer nas cartas

+ Arte belíssima

+ Verdadeiramente grátis, sem asterisco

+ Acessível, mas com muita profundidade

Pontos Negativos:

– Por enquanto, poucas cartas

– O modo Arena ainda é muito dependente da sorte

HearthStone: Heroes of Warcraft está disponível gratuitamente na Battle.net para PC e Mac, e na AppStore para iPad.

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