Um jogo de puzzles. Um RPG de estratégia por turnos. Uma máquina de gerar infinitas aventuras de 20 minutos.

Em quase qualquer género de jogo, é possível destilar a acção nos seus componentes mais básicos. Um shooter, por exemplo, é uma prova de coordenação de movimentos finos e rapidez de resposta. Um jogo de estratégia por turnos, por sua vez, é uma prova matemática de gestão de recursos. Destilar bem estas mecânicas e envolvê-las num envelope interessante é um dos ingredientes para um grande jogo.

Um jogo, no geral, é um conjunto de situações onde os participantes têm decisões a tomar para alcançar determinado objectivo. Outro dos ingredientes para um grande jogo, portanto, será uma selecção larga de decisões interessantes a tomar.

Desktop Dungeons é, simultâneamente, uma perfeita destilação da mecânica de gestão de recursos, e um jogo em que cada jogada apresenta um leque de decisões interessantes para tomar.

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Puzzle X RPG X Gestão

Pensem numa janela de minesweeper, em que todos os quadrados estão por revelar, menos o central, onde se encontra a vossa personagem, e os quadrados em redor desta.

A personagem tem nível 1, algumas habilidades que dependem da sua profissão, um valor de ataque, um valor de energia, e um valor de vida.

Carregar num inimigo ataca-o, e ele por sua vez ataca-nos a nós. Ambos perdem vida, determinada pelo poder de ataque de cada um. Todos os valores são conhecidos – a morte nunca é consequência de surpresa, apenas de falta de atenção e de não saber fazer contas.

Morto o inimigo, ganhamos experiência conforme o seu nível – matar monstros acima do nosso nível é quase impossível sem artimanhas, mas matar apenas monstros do nosso nível raramente nos dá experiência suficiente para alcançar o nível necessário para matar o monstro mais poderoso e terminar a masmorra.

E recuperar vida, e energia para as habilidades? Um ponto por cada quadrado revelado da masmorra. Neste jogo, até a exploração é um recurso – quase toda a masmorra está explorada, a única maneira de recuperar a preciosa vida e a energia, essencial para usar habilidades, é usando poções descobertas pelo caminho, e extremamente raras.

Tudo isto deixa-nos com um jogo extremamente tenso, em que cada passo conta e cada ataque tem que ser bem calculado. Mas não fujam já! Desktop Dungeons é, apesar disto tudo, um jogo acessível.

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Respeito Pelo Jogador

Primeiro, porque tudo está muito bem representado no ecrã, de forma extremamente legível: descrições das nossas habilidades; das dos inimigos; o numero de golpes que podemos sobreviver do inimigo actual; o número de golpes que precisamos para o matar… Em suma, a qualquer momento podemos ver uma previsão bastante acertada das consequências das decisões ao nosso dispor.

Em segundo lugar, o nosso herói é descartável. Se for derrotado, morre para sempre, e com ele se vão todos os tesouros que recolheu e habilidades que aprendeu. Conquiste a masmorra, e reforma-se, para dar lugar a novos heróis, e parte da riqueza que conquistou reverte a favor do reino. E uma masmorra raramente demora mais de 20 a 30 minutos a concluir.

Portanto, a morte não tem grande consequência. É voltar a recrutar um novo herói, e tentar novamente resolver a masmorra, que é gerada aleatoriamente, portanto, será diferente da anterior, com outras armadilhas, inimigos, e tesouros.

A vitória, por sua vez, dá-nos ouro precioso para fazer evoluir o nosso reino, que na verdade é uma máquina de recrutamento de heróis. Quanto mais edifícios desbloquearmos e melhorarmos, mais heróis diferentes e melhor equipamento teremos à disposição para explorar as masmorras mais avançadas e cumprir as demandas mais exigentes.

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Um Jogo Gigante Numa Embalagem Pequena

A variedade de combinações é enorme, e o gerador de masmorras aleatório do jogo dá-nos um número de masmorras infinito onde as testar. E como há muita coisa para desbloquear, há sempre uma razão para desejar visitar mais e mais masmorras.

Tudo isto é coberto de uma bela demão de arte 2D num estilo muito clássico, uma história simples mas engraçada, com vários piscar de olhos à industria dos video jogos (a primeira missão-desafio do Ladrão chama-se “The Dark Project”) e uma banda sonora…

Ai a banda sonora. A produtora sul-africana Quarter Circle Forward conseguiu criar uma combinação arcana entre musica épica e musica de elevador que me faz desejar estar a ouvi-la neste preciso instante.

Para rematar, mesmo quando não está o nosso PC à mão, o vício pode continuar. Qualquer PC com um browser serve – o jogo sincroniza o estado de jogo com a nossa conta no site da produtora, e neste está disponível uma versão de browser do jogo para quem comprou a versão Steam. Um toque espectacular que todas as produtoras de jogos pouca exigência de requisitos deviam adoptar!

É mais uma prova da riqueza que está ao alcance de todos nesta época de desenvolvimento aberto e independente. Qualquer pessoa que esteja a ler estas palavras tem um sistema capaz de correr este jogo – e não hesito em recomendar que o faça!

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[display_label style=positivo]Pontos positivos[/display_label]

  • Sessões de jogo rápidas, 20 – 30 minutos
  • Mecânicas simples de aprender, cheias de profundidade
  • Sistema de geração de masmorras aleatórias assegura muitos desafios

[display_label style=negativo]Pontos negativos[/display_label]

  • Não dá para escolher o sexo do herói, é escolhido aleatoriamente
  • Sim eu sei que o ponto anterior é ridículo, mas não me ocorre nada

[display_label style=plataforma]Desktop Dungeons está disponível para PC e Mac. Podem comprá-lo no Steam ou no site oficial. Podem experimentar, de graça, a versão alpha completa.[/display_label]

[display_label style=plataforma]Uma versão que não tem nada a ver em termos sonoros e gráficos mas dá para entender perfeitamente como é a mecânica de jogo.[/display_label]

[display_label style=nota]Nota: esta análise foi feita com base num código Steam que a produtora enviou ao autor.[/display_label]