15 Mai 2020
PC e Mac

Análise: Company of Heroes 2

A Relic, mestre da estratégia em tempo real, convida-nos a conhecer a frente leste da 2ª Guerra Mundial.

Os jogos de estratégia em tempo real foram a minha introdução ao mundo dos jogos de computador. No Amiga, foi Dune 2: Battle for Arrakis – o pai do gênero – um dos jogos que mais joguei. O meu primeiro jogo para PC, encomendado através de um cupão que vinha numa das páginas da defunta MegaScore, foi o sucessor espiritual desse mesmo Dune: Command & Conquer, o jogo que para muitos se viria a tornar a referência dentro do gênero.

Foi então com alguma segurança que comecei a campanha deste Company of Heroes 2, apesar de nunca ter jogado os outros jogos da série. Tinha a certeza de que não teria problemas em adaptar-me a qualquer variação que este jogo trouxesse à formula conhecida, ainda mais quando estamos em 2013 – a era dos jogos que fazem a papinha toda ao jogador e explicam tudo minuciosamente.

Estava completamente errado.

Company of Heroes, e os jogos da Relic em geral, fogem ao habitual. A maior parte destes jogos incentivam estratégia em larga escala, com produção e controlo de centenas de unidades individuais, e Company of Heroes faz o oposto: limita-nos a uma duzia de esquadrões e mão-cheia de veículos, e privilegia tácticas de combate baseadas em redor de cobertura, posição e das habilidades técnicas de cada unidade.

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Para além disso, este não é um jogo amigável para novatos. Há apenas uma missão tutorial que não cobre todas as bases, e o manual que se encontra escondido por entre os menus iniciais explica muitos conceitos ao pormenor mas falha outros. Senti muito a falta de um bom manual ao meu lado, com uma lista dos comandos de teclado e descrição base das unidades. Talvez a versão física do jogo traga um, mas na minha versão Steam não encontrei nada semelhante. Apesar do modo de dificuldade mais básico se apresentar como sendo para “jogadores novos à série” a verdade é simples: o jogo pressupõe que quem o está a jogar já jogou os anteriores.

Numa das primeiras sequências cinematográficas, onde os oficiais Russos empurram centenas de soldados despreparados em direção à morte face à máquina de guerra alemã, um jovem vira-se para o seu comandante e lamenta-se: “Comandante, eu não tenho arma.” A resposta: “Então procura por uma.” Podia ser um diálogo entre o jogo e o jogador. Company of Heroes 2 não se preocupa com os pouco preparados.

A curva de aprendizado é, portanto, ingreme. Mas vale a pena. O resultado da escala menor e ênfase nas características únicas de cada unidade é um jogo muito mais focado nas decisões tácticas de combate e menos na gestão de produção das mesmas, e um jogo menos frenético do que o tipico jogo de estratégia em tempo real.

A utilização de uma habilidade como lançamento de granada ou cortina de fumo pode mudar o rumo de uma batalha. O encontro de um batalhão inimigo em posição e numero superior não significa a morte imediata das nossas unidades – não se formos espertos e ágeis, e coloquemos uma parte em cobertura para atrair o fogo inimigo enquanto outras exploram vias de flanqueamento.

Assim, Company of Heroes 2 gera uma narrativa muito diferente do habitual no género, uma narrativa mais táctica e mais pessoal. Apesar do jogador não ser representado no campo, sentimo-nos mais próximos dos nossos soldados.

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É emocionante ver um par de franco-atiradores a correr para um ponto de vantagem enquanto dois esquadrões de tropas de choque trocam tiros por entre trincheiras. Surge um panzer alemão ao fundo da rua, e imediatamente, envio um trio de soldados para manejar a artilharia anti-tanque. Com um par de tiros certeiros, David destrói golias, mas a vitória é breve – já o batalhão inimigo lançou uma granada. A contagem decrescente a vermelho faz-me correr para dispersar os meus soldados, mas o estrago está feito – a artilharia pesada não permite aos que a manejam fugir depressa suficiente. Corpos de soldados russos voam pelos artes, misturando-se com poeira e detritos.

Entretanto, os fraco-atiradores estão em posição, e da segurança de um edifício, matam o esquadrão oponente um a um. É hora do que resta do meu esquadrão avançar, e assim o fazem, e capturam o território inimigo. Cedo tocam as sirenes – aproxima-se um bombardemento inimigo, e mais uma vez, sou forçado a dispersar os soldados. Mas o edifício dos franco-atiradores é atingido e desaba num monte de ruínas, enterrando as minhas valiosas unidades. Devia ter procurado destruir a artilharia alemã antes de tentar conquistar os seus territórios.

É assim que as batalhas funcionam em Company of Heroes. Nos cenários mais intensos, temos que gerir duas ou três frentes como esta ao mesmo tempo. A posição em que colocamos os soldados é essencial. As frentes por onde atacamos são decisivas. A cobertura degrada-se à medida que vai sendo alvejada. A chave da vitória é a capacidade de ler o que está a acontecer, e adaptar. Arriscar uma corrida até à metralhadora pesada que está abandonada? Fazer um batalhão dar a volta ao quarteirão para dar cobertura? Defender ou atacar? Será melhor deixar parte das tropas naquela rua, para assegurar que uma segunda divisão alemã não nos surpreende?

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Um bom videojogo, dizia o lendário Will Wright, é um conjunto de decisões interessantes. Company of Heroes apresenta a cada instante um leque soberbo de decisões a tomar, e através dessas decisões e suas consequências, construímos em cada batalha uma história única e muito superior à narrativa apresentada de forma desleixada entre cada missão, onde um general Russo recorda a guerra com um dos seus subordinados (somos nós?) que está a ser acusado de traição por desobedecer ordens. Esta história, por contraposto à gerada pelo jogador, é muito desconexa das missões.

Dá, no entanto, um sabor de autenticidade extra ao ambiente de jogo, servindo para transmitir de uma forma mais clara as decisões desumanas que o regime comunista tomava para assegurar a vitória. É mais uma narrativa que nos pergunta se os fins justificam os meios, mas apimentada pelo facto de ter uma boa dose de veracidade histórica.

Não esperem é ver o ponto de vista alemão. A campanha é vivida exclusivamente do lado do exército vermelho, se bem que há várias missões “extra” (quase tantas como as da campanha) onde tomamos controlo das forças do Reich. Apesar disto, e de, naturalmente, os alemães serem uma escolha equiparada para o modo online, o jogo associa-se profundamente aos vermelhos, tanto de forma temática, como no caso  da musica com acordes e instrumentos típicamente soviéticos, como de forma mecânica – o inverno, e o efeito do gelo, frio e neve nas unidades são simulados em várias missões.

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A princípio recuei de Company of Heroes 2. O jogo não é nada fácil para o iniciado, e é contrário à forma de jogar o típico jogo de estratégia em tempo real. Mas cedo me deixei deslumbrar pelas micro narrativas que se formam com cada combate, fruto do mundo, armamento e condições climatéricas perfeitamente simuladas. Para quem julga que já viu tudo o que a Segunda Guerra Mundial tem a oferecer, desengane-se. A frente Leste tem muitas histórias para contar.

Esta análise foca-se na campanha e modos de um jogador do jogo. Devido ao lançamento recente do jogo, e minha ainda pouca experiência do jogo online, optei por avaliá-la à parte, numa adição futura a esta análise.

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