Está na hora de sermos um fantasma.

Março tem sido um mês excelente para os videojogos, e a Ubisoft não quis ficar para trás. Desta vez somos apresentados a mais um título para a série Ghost Recon, chamado Wildlands. Para quem não conhece, Ghost Recon é um série da coleção Tom Clancy, baseados na escrita do autor de mesmo nome. Os jogos da série ficaram conhecidos pelo seu forte teor em forças militares, sendo que a série Ghost Recon focou-se sempre numa equipa especializada de Ghosts (soldados sem identidade e que todos os vilões e ditadores têm pesadelos a pensar neles).

Antes de falar do jogo, acho que vale a pena mencionar aquilo que a Ubisoft tem feito bem nos últimos tempos. Sempre fui fã dos seus trailers, nomeadamente pelas transições, pela narrativa que é metida e no audio escolhido. Independentemente do resultado final dos jogos, tem sido das empresas que melhor sabe apresentar um jogo, e em Ghost Recon Wildlands, não foi diferente:

Em Tom Clancy’s Ghost Recon Wildlands, tomamos o papel de Nomad, líder de uma equipa militar, mais especificamente de Ghosts. Não há registos sobre quem somos, nem do que fazemos, mas os nossos alvos vão ficar a saber e ter pesadelos connosco. Pondo de lado os dramatismos, somos destacados para a Bolívia, que se encontra com um grave problema. Um cartel, chamado Santa Blanca, domina o país por completo. O poder do mesmo chegou a tal ponto que o governo Boliviano teve de fazer tréguas com o cartel. “Não matam as nossas pessoas, não nos opomos a vocês”.

Com isto, Karen Bowman, representante do CIA, irá tratar de juntar toda a informação que vamos captando para sabermos quem são os nossos alvos, e a melhor maneira de derrubarmos o cartel. Como objetivo secundário, temos também a oportunidade de ir descobrindo o que aconteceu ao ex-parceiro de Karen Bowman, que se infiltrou no cartel e já não dá sinal de vida há vários meses. Não esperem uma narrativa muito complexa, porque na realidade, o pouco que temos de narrativa são vídeos de briefing sobre os vários elementos do cartel, onde ficamos a saber quem são e pelo que são conhecidos, e à medida que vamos derrubando cada um deles vemos o impacto que andamos a ter na estrutura do cartel. Tal como todos os outros jogos da série Tom Clancy’s, o foco está no gameplay e na experiência que o jogador tira do mesmo.

O cartel está dividido em quatro divisões: produção, propaganda, segurança e distribuição. Cabe a nós escolhermos por onde queremos começar a desestabilizar o mesmo. Em cada área temos sempre quatro elementos nos escalões mais baixos, e é com eles que vamos tentar arranjar uma maneira de alcançar os que estão nos escalões mais acima, até conseguirmos chegar ao chefe dos chefes, El Sueño.

Ao contrário do que nos é proposto no trailer da E3 de 2015, existem realmente várias maneiras que podemos derrubar os vários elementos do cartel, seja capturando e interrogando, matando ou até mesmo deixando-os na mão de El Sueño, depois de destruirmos o seu trabalho. Contudo, não temos esta variedade em cada um dos elementos, vemos isto em determinadas personagens. Alguns podemos capturar, outros matamos e assim sucessivamente. O que realmente podemos escolher é a maneira que podemos abordar cada missão, e é aí que a magia desta série está.

Falando do gameplay em geral, é um third person tatical shooter, mas temos a opção de fazer a mira em primeira pessoa, isto porque grande parte do combate é feito furtivamente e um tiro ao lado pode significar muito neste jogo. Um dos elementos principais do jogo, é a nossa equipa, e nós temos de saber coordenar a mesma, através de uma roda de comandos. O único problema acaba por ser a inteligência artificial que não vê as nossas decisões como nós a vemos. Um elemento frustrante é o facto de quando não damos uma ordem, mesmo que passem à frente de um inimigo, não são detetados, contudo se nós mandarmos a equipa para um determinado lugar e eles passarem à frente de um, soltam logo os cães. Torna-se cansativo de tentar coordenar a equipa quando não temos a opção de comandar cada um deles individualmente, nem de definir um modo passivo para eles. Muitas vezes o inimigo passa por eles e não há uma reação nem um comando para o mandar abater.

Acabamos por ignorar a nossa equipa e limitamo-nos a usa-los para Sync Shots, onde coordenamos tiros para abater grupos de inimigos em sincronia (onde por vezes falha). No entanto, a verte co-op com amigos tudo se torna melhor. Com a oportunidade de jogar com amigos, as missões tornam-se muito mais interessantes e muito mais táticas, especialmente quando tentamos fazer tudo na perfeição. Algumas coisas mudam no online, nomeadamente a roda dos comandos, que acaba por se tornar numa roda social, e passamos a dar ordens aos nossos colegas apontando com a mira da arma. Os Sync Shots continuam a existir mas funcionam de maneira diferente ao modo single-player. Enquanto que a solo temos de esperar que a equipa esteja em posição para abater o alvo (mesmo que não estejam, arranjam maneira), em cooperativo, sabemos que os nossos colegas estão a apontar para o alvo, quando a mira pára de piscar. Infelizmente o jogo não preenche vagas vazias, caso não tenhamos uma total de quatro amigos com quem jogar, o que pode ser uma grande desvantagem para dois amigos que queiram passar a campanha cooperativamente, tendo de fazer o seu papel e o dos que estão em falta.

O que se pode dizer é que o jogo torna-se muito mais apelativo quando jogamos com amigos, principalmente a falar pelo microfone. Não recomendo jogarem com jogadores aleatórios, pois muitas das vezes eles vão a correr em frente como se estivessem num filme realizado pelo Michael Bay. No modo a solo por vezes sentimo-nos demasiado sozinhos, mesmo tendo a nossa equipa atrás, que se demonstra útil, apenas quando metemos a pata na poça ou quanto estão em veículos. Mas não deixa de ser gratificante conseguirmos fazer uma missão “sozinhos” sem alertarmos ninguém.

Se quiserem um pouco de desafio, podem experimentar os diferentes modos de dificuldade, desde o Arcade, Regular, Advanced e Extreme. No modo Arcade podem ter uma experiência mais descontraída, mas os fãs de algo mais desafiante deverão experimentar o modo Extreme, onde os inimigos estão mais alerta e são muito mais letais.

Falando do que podemos personalizar, temos um character creator no início do jogo, para podermos personalizar a nossa personagem ao nosso critério, sendo um pouco limitado nos aspetos físicos, mas bastante abrangente no que toca a vestuário. Infelizmente, roupa preta não significa que seremos menos detetados à noite, por isso podem-se mascarar de pirilampo, que não fará diferença nenhuma no jogo. Quanto às armas, aqui é onde a variedade existe. Para além de podermos escolher as diferentes peças para as nossas armas de eleição, ainda podemos escolher uma cor ou padrão para a mesma, ou até mesmo para cada uma das peças. Para quem se contenta com algo pre-feito, à medida que vamos derrubando o cartel, vamos desbloqueando armas únicas de cada elemento.

Para desbloquearmos armas, teremos de as encontrar. Todas as armas e acessórios encontram-se espalhadas pelas diferentes áreas da Bolívia, e para sabermos onde estão temos de encontrar informação sobre as mesmas. Isto implica que quando vamos para uma zona nova, a primeira coisa que temos de fazer é encontrar tenentes para os interrogar sobre a zona e o que podemos encontrar na mesma. Fazendo isto algumas vezes ficamos a saber as várias coisas que se encontram no mapa: caixas de armas e acessórios, skill points, medalhas, recursos e missões secundárias.

As caixas de armas e acessórios, normalmente irão estar dentro de bases inimigas ou em cidades dominadas pelo cartel, mas não serão necessárias caso tenhamos uma arma que se enquadre com a nossa maneira de jogar. No entanto, os skill points e as medalhas deverão ser um foco para o jogador, pois o jogo apresenta-nos elementos RPG, como níveis e uma skill tree, onde podemos melhorar as nossas capacidades físicas, da arma, do nosso drone, de items e do esquadrão.

As missões secundárias servem para melhorarmos os nossos perks com os Rebeldes, permitindo-nos fazer pedidos de veículos, distrações, morteiros, ajuda e spotting, mas de vez em quando iremos encontrar algumas missões secundárias que nos ajudam a recolher recursos. Os recursos tomam um papel diferente em Wildlands. Enquanto que noutros jogos com elementos RPG, os recursos servem para crafting, aqui, o prepósito deles é permitir ao jogador melhorar as suas capacidades, juntamente com os skill points. Estas missões levam-nos a fazer uma variedade de coisas, como atacar um posto satélite, desligar torres de comunicação, roubar aviões e helicópteros, interrogar alvos de interesse ou atacar uma frota em movimento.

Mesmo que o governo boliviano ache que o seu país está mal representado em Tom Clancy’s Ghost Recon Wildlands, não podemos deixar de admirar o excelente trabalho que foi feito no mesmo. O país encontra-se dividido em várias zonas, onde somos livres para explorar logo desde o início do jogo. A navegação no jogo é bastante intuitiva, no entanto existe uma clara preferência para o fazer por vias aéreas. Os terrenos montanhosos da Bolívia tornam-se bastante difíceis para quem pretende deslocar-se de carro ou mota, não que isso seja um ponto negativo no jogo, mas apenas mais um elemento que nos vai fazer pensar na maneira como podemos abordar cada situação que nos é proposta no mesmo.

Cada uma das zonas tem os seus elementos únicos, desde cidades, monumentos, ou até o próprio terreno. A grandiosidade do mapa é bastante notória quando nos encontramos no avião ou helicóptero e conseguimos ver todos os elementos à distância. Todas as montanhas que vemos são trepáveis, todos os monumentos e cidades são exploráveis, e podemos navegar entre eles sem tempos de carregamento, seja por terra, água ou ar.

Um twist interessante é a introdução do exército boliviano, o Unidad Forces, que se irá cruzar muitas vezes connosco. Funciona como a policia do Grand Theft Auto, no entanto, embora esteja a trabalhar em conjunto com o cartel Santa Blanca, existe alguma tensão entre os dois, o que faz com que seja fácil criar uma briga entre ambos, para nos abrir uma janela de oportunidade.

No entanto, nem tudo corre nas melhores condições. Para esta análise, pegamos na versão Xbox One e notámos muitos frame drops e screen tearing, mesmo em situações de pouco movimento. O HUD é muito pequeno, tornando-se ainda mais pequeno quando estamos a conduzir um veículo, o que levou a que muitas vezes tivesse de abrir o mapa para certificar que tinha feito a curva na altura certa, pois para além de pequeno, o mini mapa está sempre cheio de icons de missões secundárias e colecionáveis, criando um entulho visual extremamente confuso. Para quem tem problemas de rede em casa, deverão pensar duas vezes se não preferem desligar a internet definitivamente enquanto jogam, porque se acontecer ficarem sem internet a meio do jogo, ele vai pendurar e crashar.

Quem quiser aumentar a sua experiência de jogo, tem a companion app para iOS e Android, que tem um mini jogo que permite-nos juntar materiais para o jogo na consola, ou podem aceder à Ghost Recon Network para verem como se andam a portar no jogo ou para criar e gerir um clã.

Em suma, Tom Clancy’s Ghost Recon Wildlands é tudo aquilo que podemos esperar dele. Um jogo de mundo aberto, com muito conteúdo para explorar, muitos colecionáveis que trazem prepósito e narrativa ao jogo, muito conteúdo secundário para fazer. A narrativa não é o foco principal, pois é extremamente previsível do início ao fim, mas a jogabilidade é o que torna o jogo interessante, tal como todos os outros títulos das séries Tom Clancy. Melhor ainda se for com amigos. À parte dos seus erros técnicos, não deixa de ser um jogo cativante, com um mapa enorme e muito conteúdo para explorar.

Tom Clancy’s Ghost Recon Wildlands encontra-se disponível para a PlayStation 4, Xbox One e PC.