Quando um projecto low-budget nos faz acreditar que valeu a pena ter penhorado aquele rim para comprar o Playstation VR.

Stifled é uma aventura na primeira pessoa que explora a realidade virtual através dos nossos sentidos, fazendo-nos mergulhar numa experiência que tem tanto de original como de assustadora.

À primeira vista e durante os primeiros 10 minutos de jogo pensamos que estamos diante de mais uma experiência VR que acabou por ser mais uma cópia deslavada de tudo aquilo que já tinha sido feito até então. No entanto, Stifled aposta forte no lema “menos é mais”, e o foco do jogo é mesmo esse. Retirar-nos quase que toda a nossa visão de jogo e obrigar-nos a fazer uso da nossa audição de forma perspicaz.

Este jogo ao início mostra-nos uma casa toda decorada de forma mundana à qual vamos interagindo para nos ambientarmos às suas mecânicas, introduzir-nos o nosso personagem e toda a trama. Achei as texturas bastante primitivas. A sanita da casa lembra-me a do Counter Strike 1.6, mas sem o petardo lá dentro, por exemplo. Mas visto que este jogo foi feito pela Gattai Games, uma empresa independente com um grupo de developers bastante reduzido, parti do princípio que os gráficos quase que não interessam para nada. E no final tinha razão, não interessavam rigorosamente para nada, porque o jogo é todo ele feito de vectores e é aí que reside a sua magia.

O protagonista do jogo começa por ter flashbacks na sua casa e ao sair porta fora dá-se outro flashback e acorda junto ao seu carro acidentado, cheio de sangue e sem saber o que fazer. A partir daí ele quase que perde a visão e passa a confiar quase que unicamente no seu sentido de audição. Audição essa que lhe oferece uma espécie de visão de morcego, onde os sons criam um espectro visual ao ressoar e vibrar no ambiente que o rodeia. Está assim introduzida a ideia de Stifled.

No meio de tanto mistério e confusão, o protagonista sem saber o que fazer acaba por dar conta de que não está sozinho, e há alguém ou algo à espreita pronto para o matar. Conseguimos deduzir isso pelos vectores que se vão formando a cor avermelhada consoante os ecos que podemos fazer com o nosso corpo (voz ou palmas) ou com recurso a objectos que vão desde pedras, sapatos e até garrafas ou brinquedos. Todo o resto do ambiente de jogo é formado por vectores brancos que limitam o nosso caminho, fazendo desta aventura algo muito linear e straight-forward. Ao longo do nosso percurso enigmático vamos regressando ao passado onde vivemos cenas da nossa vida e exploramos locais que estão relacionados com a nossa história e da nossa família. Aqui já temos a nossa visão monocromática de volta e voltamos às texturas medonhas. Mas é sempre por muito breves momentos.

Stifled é um jogo que se passa bem numa tarde e que nos oferece um modo de jogo em televisão e outro fazendo recurso do Playstation VR. O factor medo está todo ele presente apenas na realidade virtual e este jogo está carregadinho de sustos e imprevisibilidades. Mesmo quando pensamos que conseguimos escapar daquele inimigo, eis que aparece outro que nos estraga os planos todos. Aliando o PS VR a um volume bastante alto, podem crer que jump scares são as palavras de ordem nesta experiência.

Este jogo está de parabéns pela ideia genial que foi retirar tudo aquilo que torna um jogo de terror banal e deixar apenas aquilo que já muitos produtores veteranos do género se esqueceram de aperfeiçoar ou de prestar atenção, a audição.

Sem dúvida que Stifled é uma verdadeira surpresa que faz acreditar que não é preciso gráficos de última geração para nos fazer mergulhar de cabeça na realidade virtual.