Como ressuscitar um clássico com quase 40 anos? Fácil. Em equipa que ganha não se mexe, actualiza-se.

Sou suspeito para falar de qualquer remake de qualquer jogo que venha da era dos 16-bit por ser um enorme fanático dessa altura, mas quando falo, vou sempre com um pé atrás porque nem sempre vale a pena desenterrar o que morreu em glória. Neste caso, Shadow of the Beast, originalmente produzido pela Reflection e lançado pela Psygnosis em 1989 para o Commodore Amiga,  volta a ver a luz do dia na Playstation 4 com o cunho da empresa Heavy Spectrum Entertainment Labs. Toda a misticidade, fantasia grotesca e originalidade diabólica estão de volta e melhor que nunca. Nunca imaginei ver esta série renascida para os dias de hoje, e se já não a via acontecer na geração de 32 e 128bit, na geração actual então, para além de pensar que não faria sentido quando foi anunciado, achava que iria ser um remake feito às três pancadas para que a Heavy Spectrum ganhasse uns cobres às custas dos fãs.

Na verdade, Shadow of the Beast é o remake que todos nós esperámos durante décadas, e apesar de apreensivo em relação ao salto do típico sidescrolling 2D para o 3D, achei que foi uma ideia brilhante da equipa manter este título nas suas origens mas, adaptá-lo às exigências do mercado actual.

SHADOW OF THE BEAST

O estilo sidescroller que sempre caracterizou Shadow of the Beastmantém-se e melhor do que poderia alguma vez esperar. A exploração não-linear continua a ser parte da alma deste jogo, mas desta vez os produtores quiseram que a tarefa fosse mais facilitada, não tendo que retroceder a toda a hora, só mesmo se assim for necessário, e quando o é, é porque realmente nos esquecemos de activar/apanhar algo que nos faça progredir no jogo. O gameplay lembra-me bastante um Oddword Abe’s Oddysee meets God of War, e acredito que tenha servido de inspiração para Heavy Spectrum, especialmente nas secções e puzzles em parallax que vamos encontrando durante o jogo e nas lutas com determinados bosses.

Em Shadow of the Beast somos Aarbron, um mero humano raptado em criança e tornado num monstro que ao comando de um feiticeiro de Maleloth, mata tudo e todos os que se atravessam no seu caminho, humanos, animais ou monstros.Durante a sua impiedosa jornada, Aarbron, sempre acorrentado ao feiticeiro, vê o mesmo raptar um bebé e isso desperta nele memórias de quando foi tirado dos braços do seu pai. Enfurecido, Aarbron consegue quebrar a corrente que o prende e parte à procura do feiticeiro que o fez prisioneiro toda a vida, e Maleloth, que fez dele uma besta mortífera,  de modo a vingar-se e procurar assim a sua redenção.

SHADOW OF THE BEAST

O jogo está repartido em 7 níveis, e todos eles estão repletos de criaturas únicas e macabras, ambientes sombrios e ítens que nos ajudarão na exploração e combate, ou a reviver a história do protagonista de modo a conhecer melhor todo este universo único. Nível após nível, vamos penetrando os confins do inferno criado por Maleloth, enquanto liquidamos os seus servos. De início, são bastante simples de eliminar, mas consoante avançamos na história, temos de criar combinações de ataque e ser precisos na defesa. Dominar os golpes e ataques especiais de Aarbron são essenciais para conseguirmos progredir no jogo.  Quanto maior for o nosso combo, maior é a nossa pontuação e mais medalhas ganhamos, seja da platina até ao chumbo.  Neste aspecto, gostei de ver que o estilo de combate é bastante influenciado pelos jogos da Rocksteady, e toda a pontuação serve não só para as leadeboards online como também para desbloquear novos ataques, aumentar a energia de Aarbron e desbloquear inúmeros goodies.

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Durante a acção ganhamos sangue, que ao eliminar inimigos vai enchendo 3 slots. Quando esses slots estão preenchidos podemos lançar um ataque de fúria que vai matando todos os inimigos na tela numa espécie de quick time event ou podemos usar um slot de cada vez para usar outros tipos de ataque que aumentam o nosso score. Temos de ter cuidado ao usar esses ataques, porque apesar de pontuarmos mais, demoram mais tempo a ser executados e podemos perder um combo se não formos precisos ao atacar. No geral, o combate durante o jogo corre às mil maravilhas e a fluidez dos combos, mesmo que para um sidescroller, é algo que merece nota 10.

SHADOW OF THE BEASTVoltando aos goodies, com a pontuação que vamos ganhando ao longo do jogo, para além de podermos desbloquear ataques, upgrades e objectos de melhoria de personagem, temos também o jogo original da Psygnosis à nossa disposição como também uma opção desbloqueável para vidas infinitas, de modo a desfrutar de tudo o que este clássico incontornável tinha para oferecer. Se isto não for motivo suficiente para comprar o jogo, temos também para desbloquear, um gameplay completo do jogo original, comentários e arte originais e até a opção de mudar a banda sonora do jogo pela original do classico do Amiga.

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A originalidade na arte do jogo é fora de série, e o grafismo de geração actual aliado a uma temática com quase 40 anos só vem afirmar que os remakes, apesar de já não serem moda há mais de uma década, continuam bem de saúde e recomendam-se. Muitos dos inimigos e cenários, apesar de inspirados no clássico de 1989 e no trabalho de Roger Dean, são unicos e originais e muitas das ideias que foram implementadas neste jogo são ideias que os criadores originais da Reflection queriam implementar na altura mas que não conseguiram por questões técnicas.

SHADOW OF THE BEAST

O único ponto em que o jogo peca é na sua longevidade, que apesar de ser bastante rico em conteúdo, podia oferecer muito mais níveis, mas ainda assim, visto que o mesmo oferece bastantes níveis de dificuldade diferentes, passar os mesmos níveis várias vezes, desbloqueando e descobrindo tudo, é algo que até cai bem, especialmente para os fãs que não ouviam falar desta série há décadas.

Ainda não se conhece nenhuma data para lançamento de um edição física, apenas digital na Playstation Store. E em tom de ironia ao seu próprio nome, é um título cujo lançamento ficará nas sombras de outros títulos como Uncharted 4 e Doom. No entanto, não percam este jogo pois acredito que Shadow of the Beast tem tudo para fazer resnascer uma série de qualidade há muito esquecida e algo me diz que este título é só um apetizer do que está para vir.

Shadow of the Beast pode não ser o jogo do ano, mas deixá-lo cair no esquecimento seria um erro tremendo.