“Onde é que foste buscar tanto estilo!?”

Uma fórmula de sucesso envelhecida durante 20 anos. Será  que Persona 5 faz justiça ao hype que se criou em volta dele graças à 3ª e 4ª entregas da série?

Graças a Persona 3, esta série criada pela Atlus em 1996 ganhou uma enorme legião de fãs fora do Japão. As aventuras dos SEES pelo Tartarus inspiraram fãs de JRPGs por todo o mundo, sucesso esse que se veio confirmar com Persona 4. Ao fim de vários anos de desenvolvimento e alguns meses de localização para Inglês, chega-nos o tão aguardado Persona 5 que nas últimas semanas me “comeu” todo o tempo livre.

Em Persona 5 o nosso protagonista é um rapaz que foi acusado de agressão e como castigo vai viver para Tóquio a cuidado de um taberneiro. Existem duas vertentes distintas de jogo: O típico RPG por turnos e a vertente Dating Sim. Nesta segunda podemos explorar diversos locais da cidade, participar em várias actividades e criar/aumentar laços com outros personagens. Esses laços são baseados nas cartas do tarô e o estado dessas relações vão influenciar o poder dos nossos personas assim como dar novas habilidades em batalha e nas tarefas do nosso dia-a-dia. É preciso fazer uma gestão cuidada do nosso tempo, pois temos datas limite para completar cada uma das missões principais e por vezes temos de abdicar de evoluir certo laço para aumentar as nossas estatísticas ou até mesmo ter que trabalhar para ganhar dinheiro extra. Existe uma boa quantidade de sítios para visitar e vamos desbloqueando mais ao longo da história. Podemos também desbloquear novas localizações lendo brochuras de restaurantes e outros locais de lazer. As áreas que podemos explorar não são muito grandes mas estão recheadas de pormenores interessantes. Um exemplo disso é que quando estudamos num café num dia chuvoso, o estudo será mais produtivo pois menos pessoas se irão encontrar no estabelecimento, logo a nossa concentração aumenta.

Desta vez o nosso gang está encarregue de mudar o coração de vários indivíduos, isto significa viajar até ao metaverse, um universo paralelo onde as verdadeiras intenções de cada um vêm ao de cima, e roubar um tesouro metafórico que reflete o que estes mais desejam. Como nos jogos anteriores, este mundo alternativo tem uma temática, e desta vez o mundo fica ao estilo de uma novela de Arséne Lupin. O visual dos nossos personagens também sofre alterações para versões super heroicas e estilosas dos ladrões mais conceituados da literatura. Para além de andarmos pelo metaverse a explorar os diferentes níveis à procura de novos alvos, temos também masmorras onde se encontram os vilões principais da história. Estas masmorras são designadas como “palácios” e são edifícios com vários inimigos e puzzles que temos que completar antes de chegarmos ao nosso alvo para lhe “roubar o coração”. O mundo real e o metaverse andam de mãos dadas, e o que acontece num lado tem consequências no outro. Por exemplo: em alguns momentos iremos encontrar portas nos palácios que se encontram trancadas e só podem ser abertas completando determinada tarefa no mundo real.

A jogabilidade tanto no mundo real como no metaverse não foge muito ao que a série já nos habituou. Os palácios quebram a monotoriedade dos icónicos corredores da série, sendo que cada palácio tem o seu design próprio de acordo com a personalidade do seu dono. Não existem combates aleatórios e como somos ladrões, existem algumas mecânicas que adequam a esse facto, como esconder nas esquinas para passarmos pelos inimigos ou para fazer emboscadas para ganharmos ímpeto nas batalhas. Os combates são por turnos e utilizamos personas para atacar. Estes personas são materializações do nosso estado psicológico e permitem-nos usar as mais variadas habilidades. O protagonista é especial e consegue utilizar vários personas que podem ser fundidos para criar outros mais fortes. A base do combate é explorar fraquezas e assim que todos os inimigos estão no chão, podemos toma-los como reféns, dando-nos a hipótese de todos os nossos aliados atacarem em conjunto ou conversar com os Inimigos para fazer com que eles se juntem a nós. Esta é a grande novidade do jogo em relação aos anteriores títulos e que faz todo o sentido dada a temática do jogo.

Uma história que prende ao ecrã por quase 100 horas.

Não se deixem enganar pelos fatos e máscaras engraçadas, o jogo trata de temas pesados como prostituição, tráfico de droga e chantagem. Cada caso é bastante interessante não só durante o assalto ao palácio mas também nas semanas em que planeamos o ataque no mundo real. Cada side quest conta uma pequena história mas a cereja no topo do bolo são os relacionamentos. Cada laço social que criamos pode ir evoluindo e à medida que isso acontece, vai aprofundado a história desse personagem e em alguns dos casos pode levar a vários desfechos diferentes. Os laços são tão interessantes que acabei por perder vários dias em cafés a estudar, a trabalhar, ler entre outras actividades só para conseguir evoluir o charme, coragem, inteligência e assim progredir mais depressa nesse sentido, não só porque as habilidades de cada personagem me eram úteis, mas porque queria sempre saber mais sobre os personagens. É uma das particularidades da série Persona e que neste 5º título não é exepção. Todos os personagens estão bem escritos. Cada conversa, cada mensagem que nos enviam para o telemóvel e cada pedaço da sua história dá-lhes alma e após várias horas a interagir com eles sentimos alguma empatia por estas pessoas virtuais.

A Atlus consegue entregar uma experiência bastante sólida com um nível visual fabuloso, apostando na arte em vez de gráficos de última geração. Os pequenos detalhes visuais dos cenários, das reacções dos personagens, as transições de ecrã para disfarçar os curtos loadings, tudo está pensado ao pormenor para nos entregar um título cheio de estilo. A banda sonora acompanha-nos de forma perfeita durante todo o jogo. Seja explorando a cidade ou combatendo contra demónios, o momento é sempre bem representado com as mais diversas melodias e contando com claro, com temas de batalha que misturam Jazz com outros estilos musicais.

Kudos para a Atlus pois para compensar o tempo de espera dos ocidentais, decidiram oferecer as vozes originais, e foi assim que joguei na totalidade. Se viram animes na última década, de certeza que os nomes Nana Mizuki, Sugita Tomokazu, Jun Fukuyama e Mamoru Miyano lhes dizem algo.

Persona 5 é tudo aquilo que os fãs da série sempre quiseram, o combate clássico com uma história de grande qualidade que se consegue estender por mais de 100 horas. Cada todos os personagens são interessantes e cada momento que passamos com eles vale a pena. Existe tanta coisa para fazer em Persona 5 para além da história principal. Podemos andar a vaguear pela cidade para evoluir o nível cognitivo do protagonista ou até mesmo andar no metaverse à caça de novos personas para tentar completar a “caderneta”. Contudo, a fórmula já começa a mostrar alguns sinais de cansaço e um pouco de ousadia para expandir a série seria bem vinda.

Análisado numa Playstation 4