Temos uma análise 100% portuguesa para vocês.

Para quem não tem acompanhado a notícias nos últimos tempos, este jogo pode-vos parecer um choque, mas para quem tem acompanhado deverá estar ansioso por este título desenvolvido pela Nerd Monkeys. A Nerd Monkeys é um estúdio português criado por Filipe Pina, conhecido por ter desenvolvidos os jogos Toy Shop e Under Siege, e por Diogo Stuart, conhecido como o dono da loja PressPlay Porto. O estúdio conta com uma equipa 100% portuguesa, variando entre experientes e novatos na área de criação de jogos.

Inspector Zé e Robot Palhaço em Crime no Hotel Lisboa é o primeiro título desenvolvido pelo novo estúdio, e podemos dizer que é um jogo que irá por Portugal nos mapas. A estória do jogo é em Portugal nos anos 80, onde o nosso protagonista, Inspector Zé, irá resolver um crime misterioso com a ajuda do seu companheiro Robot Palhaço. O que torna este jogo ainda mais português é o ambiente, onde podemos facilmente identificar elementos típicos de cultura visual portuguesa: caixotes do lixo, taxi preto e verde aqua, elétricos de Lisboa, ponte 25 de Abril em plano de fundo, e muitos outros elementos. Só por isto já seria o suficiente para o jogo dar a entender que a narrativa se desenrola em Lisboa, contudo os nossos amigos da Nerd Monkeys acharam que não era suficiente, então decidiram trazer um pouco do povo português para o jogo… Oh bolas!..

Tudo o que pode representar Portugal está lá, mas o que dá mais ênfase é exatamente as falas e a caracterização das personagens. O Inspector Zé e o Robot Palhaço são a dupla improvável que se completam um ao outro através da sua amizade estranha, onde o Inspector Zé é o detective com uma carreira sem futuro que pensa que sabe tudo, mas por vezes não tem as melhores abordagens nas suas investigações, e o Robot Palhaço é o seu “saidequique” que nunca perde tempo para mandar uma piada ou então dar um pedaço de informação crucial para a investigação, contudo, o Robot Palhaço tem uma particularidade que quebra a barreira da quarta dimensão: por vezes ele fala sobre o jogo em si, referindo-se aos save games, ao próprio jogador ou até mesmo aos títulos dos capítulos que aparecem no ecrã. Isto dá um toque cómico ao jogo, pois todas as outras personagens não percebem do que o Robot está a falar. Todas as outras personagens seguem este padrão português que todos conhecemos e ainda o levam até aos limites.

Relativamente à narrativa, o jogo passa-se nos anos 80, e o Inspector Zé recebe no correio o seu companheiro Robot Palhaço, ao mesmo tempo que o Agente Garcia aparece no seu escritório para lhe pedir ajuda para um novo caso. Aparentemente foi encontrado no Hotel Lisboa um homem que se suicidou com catorze facadas nas costas, e a policia precisa da ajuda do Inspector Zé e Robot Palhaço, pois o caso parece altamente improvável. Sendo este jogo uma aventura gráfica point and click, pouco mais irei desenvolver sobre a narrativa, pois é o foco principal deste tipo de jogos. O que posso dizer é que a narrativa terá tantos twists que o jogador acaba o jogo a sentir-se um contorcionista e enquanto isso é bombardeado com o típico humor português. Uma experiência pessoal que tive com este jogo, foi chegar perto do fim e aperceber-me que podiam ter feito o que quisessem ao jogo que eu já não sabia ser era de propósito ou se foi alguma falha. É de se frisar que a Nerd Monkeys decidiu dar um twist a este jogo, adicionando um público, ao estilo de uma sitcom da época, que vai mostrar emoções conforme as conversas entre as personagens.

Quanto à jogabilidade, para quem conhece este tipo de jogos, sabe que é bastante simples e só precisam do rato para jogar. O jogador clica na zona para onde quer que o boneco vá ou então clica no objeto com o qual quer interagir. Há diferentes maneiras de interagir, por exemplo, com um objeto o jogador pode clicar para interagir com ele ou apenas receber informação sobre o objeto, enquanto que com personagens o jogador pode pedir informação sobre a mesma, falar com ela, ou interrogá-la. Os interrogatórios são “duelos” de três rondas entre o jogador e uma personagem, onde temos de associar a pergunta correta a uma prova do crime para passarmos à próxima ronda, mas por vezes a pergunta certa tem de ser feita pela personagem certa, isto porque, como já dissemos o Inspector Zé e o Robot Palhaço são duas personagens totalmente diferentes, e a maneira como eles se comportam nas entrevistas pode não ser a abordagem necessária para pressionar o criminoso a admitir o que fez. O jogo também conta com vários segredos e referências para o jogador descobrir, desde a PressPlay Arcade e as suas máquinas de arcada até a elementos escondidos no plano de fundo. Temos também cassetes colecionáveis escondidas pelo jogo todo.

Os gráficos acompanham o enquadramento que foi dado ao jogo, ou seja, a estória decorre nos anos 80 e os gráficos fazem lembrar os velhos tempos do Spectrum ZX 128+, e embora antigos, estão muito bem ilustrados. Todos os elementos do jogo foram bem pensados, desde os caixotes do lixo, até ao próprio plano de fundo, e um problema que havia com os gráficos antigos era a fraca percepção do que estava à nossa frente, contudo a Nerd Monkeys fez um excelente trabalho em certificarem-se de que não havia problema em perceber o que estava ilustrada. A musica é um ponto forte no jogo, pois numa aventura gráfica onde temos de ter muita atenção aos detalhes e às falas não podemos ter um som de fundo que nos distraia ou nos faça querer arrancar cabelos. Foi aí que o estúdio decidiu colocar uma musica suave, que faz lembrar as musicas que tocam nos elevadores, as quais sabemos que estão lá, mas nunca nos incomodam. Temos também um fado de Alexandra Martins, Ricardo Gordo e Samuel Lupi feito de propósito para o jogo, caso queiram reforçar o quão português um jogo pode ser.

O jogo não apresenta nenhum problema a correr, e o humor e os twists nos façam estar colados ao jogo, a sua duração não é das maiores. Explorando os vários ecrãs, apanhando as cassetes todas e resolvendo as missões secundárias todas, o jogo é capaz de nos ter colados ao ecrã cerca de três a quatro horas. Contudo temos um modo de jogo adicional, onde o Robot Palhaço está numa atuação de comédia, e o jogador tem de completar as piadas de modo a criar um combo e atingir a máxima pontuação. Quanto mais o publico adorar as piadas, atirarão flores ao Robot que darão pontos extra, mas se errarem a piada, preparem-se para levar com tomates, gatos e cadeiras em cima que vos retirarão pontos.

Em suma, Inspector Zé e Robot Palhaço em Crime no Hotel Lisboa é um título que irá dar a conhecer Portugal no estrangeiro, mas só nós iremos perceber o humor e as referências por trás do jogo. O jogo corre sem problemas e não se deixa cair nas tendências que a indústria de hoje em dia apresenta, mostrando-se como um título independente com vontade de se distanciar de clichés que têm vindo a ser criticados na indústria. Um ponto forte do jogo é as falas e a interação entre as personagens que nos fazem sentir em casa, ao mesmo tempo que nos faz querer ver o que a narrativa tem para oferecer. Embora seja curto, não perdemos ritmo com a quantidade de humor que o jogo nos tem para oferecer. Quanto a uma nova aventura do Inspector Zé e Robot Palhaço? Se completarem o jogo a 100% poderão ter uma ideia do que poderá acontecer à nossa dupla de detetives.

Se quiserem adquirir o jogo Inspector Zé e Robot Palhaço em Crime no Hotel Lisboa, poderão fazê-lo no site do mesmo, nesta hiperligação, ao preço de 9.99€. O jogo neste momento também se encontra na Greenlight da Steam à espera de aprovação, por isso se quiserem ajudar poderão fazê-lo através desta hiperligação. Também se encontra nos top 100 do IndieDB, e se quiserem votar no jogo poderão fazê-lo através desta hiperligação.

A Nerd Monkeys já pensa no novo projeto, e está a fazer uma petição ao estilo Kickstarter, para ajudarem o estúdio na produção do próximo título. Se quiserem mostrar o vosso apoio, poderão fazê-lo através desta hiperligação.

Resta-nos saber como é a recepção do jogo no estrangeiro.