18 Abr 2019
PS4

Análise – 2Dark

2Dark parece um nome de discoteca de Alcântara, mas prometo-vos que é muito mais do que isso e diverte bem mais.

2Dark é um jogo que nos apanhou despercebidos numa altura em que jogos com gráficos soberbos andam de mãos dadas com televisões 4K e realidade virtual. No entanto, este pequeno newcomer vem mostrar que nem é preciso correr um jogo em Ultra HD para ter qualidade. Basta voltar às suas origens e ter apenas um único elemento que faz toda a diferença, ser divertido.

Frédérick Raynal é um veterano do mundo dos video jogos e é considerado por muitos o verdadeiro pai do survival horror com o seu aclamado Alone in the Dark. Também é responsável por um dos maiores jogos de culto dos PC, Little Big Adventure e sua sequela. Durante décadas, Raynal viu-se forçado a cancelar diversos projectos ou a criar jogos que acabaram por cair no esquecimento, não devido à sua falta de qualidade mas, não era isso que as massas procuravam na altura.

Em pleno 2017, Raynal arrisca-se a trazer um jogo que parece ter sido feito a pensar em 1995, mas será que é tão bom como o título que o tornou famoso? Vamos ver.

2Dark é uma mistura de survival horror com aventura e stealth que tem como premissa o salvamento de crianças nível após nível  enquanto descobrimos pistas para progredir na história. Neste jogo, passado na cidade fictícia de Gloomywood, somos o detective Smith, e após um pacato acampamento, a nossa mulher é morta e os nossos filhos são raptados por um grupo de pessoas desconhecidas.  Durante anos, Smith tenta encontrar o rasto dos seus filhos sem sucesso até que um dia descobre uma pista que o leva a um circo abandonado na esperança de os reencontrar. Cedo apercebe-se que as suas crianças são apenas mais duas vítimas em dezenas de crianças raptadas por uma rede criminosa maior do que aquilo que ele podia imaginar.

Este jogo não só me surpreendeu pela positiva como também me fez estranhar o facto de haver mutilação de bebés e de vermos crianças serem usadas como animais amestrados ou escravos sexuais. Achei estes pormenores dispensáveis.

Como havia referido à pouco, os gráficos remetem para a os inícios dos anos 90, lembrando jogos como Zombies, Ghoul Patrol ou até Casper, sendo que este último seja semelhante em quase tudo o que vemos em 2Dark, tirando as crianças claro. Outro pormenor interessante são as inúmeras falas que vamos lendo no ecrã ao estilo de point and clicks como Monkey Island ou Discworld, ajudando à narrativa e enriquecendo a experiência no seu todo. Falas essas podem ser activadas ao explorar o cenário, observar inimigos enquanto estamos escondidos ou interagir com os mesmos usando determinados ítens que são ou não canónicos para a história. Por exemplo, podemos entrar a matar se tivermos as armas certas, mas tem mais piada conseguir matar um boss envenenando-o ou atirá-lo aos leões (literalmente).

Quase tudo o que encontramos no cenário pode ser utilizado para nos auxiliar na missão ou para nos matar, e ao aproximarmo-nos de algo que seja útil, Smith faz um som e pode-se ver um ponto de exclamação na sua cabeça. A maneira mais inteligente de usar o que o cenário nos oferece será atraír inimigos para as armadilhas que foram criadas para nós. Irónico no mínimo, mas eficaz. Temos também dezenas de objectos que vamos apanhando e que podemos combinar e usar a nosso favor como por exemplo pilhas e uma lanterna. Se bem que estas pilhas são de uma qualidade péssima, durando apenas escassos minutos. Outro ponto interessante é a forma como salvamos o jogo. Combinamos um isqueiro com um maço de tabaco e podemos salvar on-the-go como, quando e onde bem quisermos. Isso ajuda bastante e torna o jogo demasiado fácil. No entanto, tenham cuidado ao salvar quando estão a fugir de inimigos. Pois Smith demora uns bons 10 segundos a fazer save e podemos salvar mesmo encima de alguém a dar-nos um tiro ou uma facada, tendo assim que recomeçar o nível inteiro.

Um dos objectos mais caricatos e que mais jeito nos vão dar, sendo também colecionáveis, são os rebuçados. Podemos usá-los para obter melhor score no final de cada nível, apanhando-os todos. Podemos atirá-los contra alavancas para abrir portas, desarmar armadilhas, atraír crianças e até para distraír inimigos. Outros objectos que vão aparecendo ao longo dos níveis, à primeira vista parecem ser inúteis mas conforme vão progredindo vão ver que vos vão fazer falta. Por fim, documentos também são essenciais para o progresso do jogo, sendo que mesmo que salvemos todas as crianças num nível, só conseguimos seguir em frente se encontrarmos os documentos certos que nos vão dar pistas sobre o paradeiro dos nossos filhos ou mais informações acerca dos seus raptores e a história no geral em torno de Gloomywood. Portanto, aconselho-vos a explorar minuciosamente cada canto de cada nível para desfrutar do jogo ao máximo.

Salvar as crianças não é tarefa fácil e para isso temos de as encontrar. A maior parte delas estão bem escondidas e precisamos de obter chaves especiais para abrir portas secretas ou resolver puzzles fáceis e curtos. Elas movimentam-se lentamente e se andarmos depressa demais ficam para trás e perdem-se. Podemos chamá-las ou pedir para ficarem quietas. Esta tarefa torna-se extremamente difícil quando ainda temos inimigos vivos. Aconselho-vos a matarem tudo primeiro e só depois resgatá-las. Tenham cuidado porque se elas avistarem um corpo morto, ficam com medo e não vos seguem, mas para isso basta arrastá-lo e esconde-lo.

Sendo este jogo muito à base de stealth, podemo-nos esconder no escuro, onde não somos detectados e a barra lateral do menu fica azul. Se estivermos descobertos a barra torna-se vermelha. Usem isso a vosso favor e caminhem sempre devagar quando perto de alguém.

Apesar do jogo apenas conter 6 níveis, podemos demorar horas a completar um nível. Passamos de circos para manicómios e até penthouses. Este jogo requer que calculemos cada passo e que analisemos tudo o que está à nossa volta. Não tenham pressa.

Não pensem que só porque os gráficos são retro e até meio cartoon que o suspense não está lá, porque está. Podemos ser surpreendidos por um buraco no chão, espigões, ratos ou inimigos escondidos prontos para nos pregarem um susto. A ajudar à festa temos também a atmosfera sonora que encaixa na perfeição no ambiente de cada nível. Raynal voltou às suas origens e trouxe de volta aquilo que o fez famoso, a fórmula do survival horror incrementada com diversos elementos de outros géneros que ornamentam a experiência.

Apesar de ser um jogo muito bom, a inteligência artificial dos inimigos é muito fraca e são todos facilmente manipuláveis, acabando por ser um ponto negativo a nosso favor.

2Dark vem sem grande alarido e arrisca-se a ser um dos melhores jogos independentes do ano. Recomendadíssimo a todos os saudosistas dos bons velhos tempos do survival horror.

 

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