27 Ago 2018
Análises

Análise – Super Smash Bros. for Nintendo 3DS

Eu gostava de brincar com bonecos quando era pequeno. Os meus primeiros foram os “Masters of the Universe” – He-Man e companhia. Depois vieram as Tartarugas Ninja, e mais tarde, os Transformers. Ou pelo menos acho que foi essa a ordem.

Não havia muito para fazer com eles, verdade seja dita. Eu inventava as minhas histórias, que acabavam inevitavelmente numa orgia de pancadaria épica em que bonecos voavam pelo ar, contra as montanhas que eram os sofás e por entre as cavernas formadas por cadeiras e mesas.

Quando um rapaz tem vários bonecos altamente detalhados e articulados, não há nada mais satisfatório do que os fazer andar à pancada.

Era sempre um momento esperado, aquela rara ocasião do ano em que eu tinha direito a ter mais um (ou dois, se as vacas fossem especialmente gordas!) boneco para a colecção – os anos, o Natal, ou a entrega das boas notas.

O que teria acontecido se, nessa altura, me tivesse sido deixado à porta de casa um caixote com meia-centena de bonecos novos? Provavelmente entrava em coma de felicidade.

Super Smash Bros. 3DS é esse caixote.

Super Smash Bros. É A Nintendo A Entregar Um Camião De Brinquedos

A quantidade de coisas que SSB3DS oferece é estonteante. Meia centena de personagens. Um mundo de cenários dinâmicos onde os fazer lutar. E as personagens são personalizáveis – ou podemos criar as nossas próprias, altamente elaboradas, tanto visualmente como mecânicamente.

Então e o que fazemos com estes brinquedos todos?

Orgia de pancadaria épica.

E basicamente é isso. SSB3DS sofre de uma falta de foco incrível. Despeja uma data de coisas aos pés do jogador, olha para ele, encolhe os ombros e diz: “Pronto, olha, diverte-te.”

Há o modo da pancada básica. Ou pancada em grupo. Ou pancada online, que pode ser básica ou em grupo, com regras especificas ou à badalhoca, e depois há o modo inspirado em roguelike onde o jogador anda por um cenário a matar inimigos, recolher tesouros e evoluir a sua personagem até acabar o tempo, momento em que se dá… pancada.

Sim, caro leitor. Este jogo é mesmo acerca de fazer bonecos voar pelo ar através de pancada.

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É muito difícil não simpatizar com um jogo em que posições de Yoga são um estilo de luta viável.

Super Smash Bros. 3DS Tem Mecânicas De Combate Ricas

Agora é altura de admitir que fui / sou fã do antigo Smash Bros. da GameCube (a versão Wii passou-me um ao lado). Os fanáticos de jogos de luta – grupo a que eu pertenci na minha adolescência – tendem a ser um bocado snobs em relação ás mecânicas de Smash Bros., mas eu acho-as geniais.

A ideia de que não há “vida”, e que a forma de ganhar é fazer o adversário sair do “ringue”, estilo artes marciais… É excelente, é o factor que tem diferenciado a série Smash, e é, francamente, uma mecânica muito mais interessante do que a tradicional. Permite recuperações milagrosas no ultimo momento, acrescenta uma elemento táctico superior, faz com que seja preciso conhecer as arenas e estar atento às imediações – em suma, faz desde um jogo de luta mais rico do que a maioria.

Embora muitas das personagens tenham semelhanças e ataques em comum, cada qual tem as suas nuances e ritmos, e a simplicidade dos controles afasta-o dos jogos de combos complexos e eleva-o a um patamar mais estratégico, em que depressa se dominam as bases de cada personagem e passa a ser de maior importância o reconhecimento do jogo do adversário, a previsão dos seus ataques.

Os eventos dinâmicos do cenário e os itens que vão aparecendo aleatoriamente contribuem com um factor caótico que faz com que as lutas raramente sejam aborrecidas.

O problema é mesmo a disposição dos botões na 3DS. Para um jogo em que o nível de pressão no manípulo analógico é crucial, o manípulo da 3DS deixa a desejar.  Muito. A própria disposição dos botões restantes – muito pequenos, muito juntos – é inadequada.

O hardware em que um jogo se joga, é por vezes tão importante quanto o próprio jogo. Controlar as personagens de SSB3DS é menos divertido e preciso do que em qualquer outra das suas encarnações. O conforto e instintividade dos controlos são factores importantes em qualquer género, mas especialmente nos jogos de luta.

E é a 3DS que é a fonte dos restantes problemas do jogo.

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O triste é que quando pensam em Smash Brothers, e procuram imagens pela net, é isto que vos salta aos olhos…

Super Smash Bros. 3DS É Como Assistir Ao Mundial Pela Janela da Casa-De-Banho

Voltemos à analogia dos brinquedos. Parte da piada dos bonecos da nossa infância é que eram exemplares super-detalhados dos heróis da televisão.

Da mesma forma, parte da piada da série Super Smash Bros. sempre foi o espectáculo visual de ver os nossos ícones favoritos  de Nintendo e companhia à pancada. Sempre foi apreciar as suas habilidades características, a interacção entre eles, a sua presença em cenários diferentes.

Grande parte do apelo de Super Smash é o espetáculo. O ecrã de uma 3DS não é adequado para tal espetáculo – nem o da minha, que é uma XL.

O sucesso é variável. Personagens altamente estilizadas, com silhuetas diferenciadas, como é o caso de Mario, Megaman, Browser, Kirby – estas transitam para o ecrã pequeno sem grande mácula.

Mas e o crescente número de heróis humanoides? Eu fiz quatro combates contra o Shulk e só no fim é que percebi que estava a lutar contra ele – uma personagem que acompanhei durante mais de 60 horas de RPG.

Até meti a minha vista em causa e fui dormir, que já era tarde. Na manhã seguinte, confirmei. A acção rápida e caótica exige um zoom out dos cenários que não é compatível com personagens elaborados, que se tornam indistintos quanto mais a câmera se afasta.

O que me espanta ainda mais é que a Nintendo, que costuma ser perita em aproveitar as capacidades únicas da sua plataforma, aqui ficou um pouco aquém com uma coisa com que eu valorizo: o 3D. Num jogo com tantos coleccionáveis, tantas maneiras de aproveitar o 3D fora do jogo… E o esforço foi mínimo.

Estava a investigar alguns dos meus troféus – ganhá-los continua a ser a minha razão favorita para jogar, são estatuetas virtuais lindamente elaboradas e acompanhadas por uma descrição da personagem ou item em questão – e até tive que experimentar olhar para a 3DS de várias posições e variar o slider da intensidade do 3D, porque o efeito nuns troféus é nulo e noutros quase não se nota! Para um fã de 3D como eu, isso é uma facada e tanto.

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… mas na realidade é para isto que vão passar 90% do tempo a olhar.

Super Smash Bros. Dá Ao Jogador Os Melhores Brinquedos, Mas A Pior Estructura

Se vão comprar este jogo, preparem-se: vão receber um caixote de brinquedos geniais, mas nada mais. Como se divertem com eles é com vocês – na maior parte dos casos vai ser andando à porrada, sozinhos ou com amigos ou com desconhecidos na internet. Há muitas maneiras diferentes para o fazer, e muitos brinquedos adicionais para desbloquear.

Às vezes, vai-vos parecer que os brinquedos estão besuntados em manteiga e vos escorregam nos momentos mais críticos. Outras vezes, vão olhar para a confusão indefinida no ecrã da 3DS e ponderar visitar o oftamologista.

Estes são os melhores brinquedos do mundo, nas piores condições possíveis para brincar com eles. A Nintendo aqui está claramente a sofre de um caso de Sony-ismo. Repetiu o erro com que a Sony tem condenado as suas plataformas portáteis: tentou cortar e espremer um jogo caseiro para o conseguir enfiar numa portátil. Não dá. Há géneros que não funcionam em portáteis. Este é um deles.

Super Smash Bros. tem muito conteúdo e de boa qualidade, mas neste momento, nesta consola? Passo. Simplesmente não o quero jogar mais, algo que nunca pensei vir a dizer de um caixote cheio de brinquedos das minhas personagens favoritas. Só o consigo recomendar a quem não tenha nem esteja a pensar ter uma Wii U onde possa ter a experiência sem cortes nem entraves daqui a uns meses – e com amigos com quem jogar.

Pontos Fortes:

+ Imenso conteúdo

+ Musica

+ Uma celebração de tudo o que é Nintendo

Pontos fracos:

– Comandos “perros”, pouco intuitivos

– Confusa a relação entre os vários modos de jogo

– Ecrã de portátil restringe a acção e faz perder espectáculo

– Fraca implementação do 3D

Super Smash Bros. 3DS está disponível para a Nintendo 3DS. Esta análise foi realizada com base na versão descarregável para a qual a Nintendo nos disponibilizou um código. Foram testados todos os modos, inclusive os modos online.

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